— Tentei manter você tão perto de mim quanto pude — falou minha mãe. — Eles me disseram que isso era um erro. Mas só havia uma outra opção, Percy... o lugar para onde seu pai queria mandá-lo. E eu simplesmente... simplesmente não poderia aguentar ter de fazer isso.
— Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
— Não uma escola — disse ela suavemente. — Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai — que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer — teria falado com minha mãe sobre uma acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
— Desculpe, Percy — continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. — Mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
— Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.
Naquela noite, eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar um ao outro á beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem mais arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que rachava árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
— Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada — alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
— Procurei a noite toda — arquejou ele. — O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada — não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
— Percy — disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. — O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
— O Zeu kai alloi theoi! — gritou ele. — Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças — e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
— Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
Ela agarrou sua bolsa, jogou para mim a minha capa de chuva e disse:
— Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro — mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Havia cascos fendidos.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava de excursões do jardim de infância para o zoológico infantil — lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
— Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
— Não exatamente — disse ele. — Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
— Observando a mim?
— Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo — acrescentou apressadamente. — Eu sou seu amigo.
— Ahn... o que é você, exatamente?
CONTINUA
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
10 - O Ladrão de Raios
Como se eu fosse dirigir aos doze anos. Mas isso não importava para Gabe. Se alguma gaivota fizesse cocô na pintura, ele arranjaria um jeito de me culpar.
Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou á porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.
Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
Eu adorava o lugar.
Íamos para lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia porque a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
Á medida que nos aproximavámos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficando da cor do mar.
Chegamos lá ao pôr-do-sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho ás gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
Acho que eu devia explicar a comida azul.
Veja bem, Gabe uma vez disse á minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversário azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso — junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano — era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para a rebeldia, como eu.
Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
Finalmente, reuni coragem para perguntar o que sempre me vinha á cabeça quando íamos a Montauk — meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d'água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
— Ele era gentil, Percy — disse ela. — Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo preto dele, você sabe, e os olhos verdes.
Mamãe pescou uma jujuba azul do saco de doces.
— Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
— Que idade eu tinha? — perguntei. — Quer dizer... quando ele se foi?
Ela olhou para as chamas.
— Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
— Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.
— Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
Tentei conciliar isso com o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre o meu pai. Uma sensação calorosa. Um sorriso.
Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
Fiquei com raiva de meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ele nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
— Você vai me mandar embora de novo? — perguntei a ela. — Para outro internato?
Ela puxou um marshmallow do fogo.
— Eu não sei, meu bem. — Sua voz soou muito séria. — Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
— Por que você não quer me ver por perto? — Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
Os olhos da minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
— Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito — que era melhor para mim deixar Yancy.
— Porque eu não sou normal? — disse eu.
— Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
— Em segurança por quê?
Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças — todas as coisas esquisitas, assustadoras que sempre me aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
No quarto ano, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da cabeça.
Antes disso — uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com minhas mãos gorduchas de bebê.
Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair.
Eu sabia que devia contar á minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a notícia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.
CONTINUA
Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou á porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.
Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
Eu adorava o lugar.
Íamos para lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia porque a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
Á medida que nos aproximavámos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficando da cor do mar.
Chegamos lá ao pôr-do-sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho ás gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
Acho que eu devia explicar a comida azul.
Veja bem, Gabe uma vez disse á minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversário azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso — junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano — era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para a rebeldia, como eu.
Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
Finalmente, reuni coragem para perguntar o que sempre me vinha á cabeça quando íamos a Montauk — meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d'água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
— Ele era gentil, Percy — disse ela. — Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo preto dele, você sabe, e os olhos verdes.
Mamãe pescou uma jujuba azul do saco de doces.
— Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
— Que idade eu tinha? — perguntei. — Quer dizer... quando ele se foi?
Ela olhou para as chamas.
— Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
— Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.
— Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
Tentei conciliar isso com o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre o meu pai. Uma sensação calorosa. Um sorriso.
Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
Fiquei com raiva de meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ele nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
— Você vai me mandar embora de novo? — perguntei a ela. — Para outro internato?
Ela puxou um marshmallow do fogo.
— Eu não sei, meu bem. — Sua voz soou muito séria. — Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
— Por que você não quer me ver por perto? — Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
Os olhos da minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
— Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito — que era melhor para mim deixar Yancy.
— Porque eu não sou normal? — disse eu.
— Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
— Em segurança por quê?
Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças — todas as coisas esquisitas, assustadoras que sempre me aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
No quarto ano, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da cabeça.
Antes disso — uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com minhas mãos gorduchas de bebê.
Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair.
Eu sabia que devia contar á minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a notícia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.
CONTINUA
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
09 - O Ladrão de Raios
“Peguei um sulfite em branco e comecei a escrever tudo o que eu sentia. Mas um sulfite era pouco, peguei doze logo de uma vez e fui escrevendo sem me questionar sobre coerência, pontuação ou se estava ficando bom, eu só precisava tirar todo esse peso de mim. Eu escrevi sobre minha infância.. Sobre todos os momentos felizes e todos aqueles em que eu quis sumir, sobre os meus pais, sobre as pessoas que foram embora me deixando com um buraco no peito e com perguntas que até hoje eu não sei responder. Escrevi sobre toda aquela parte de mim que eu sempre insisto em querer esquecer e de tanto pensar em esquecer, eu lembro. Eu chorei por horas lendo aquelas coisas que acabaram virando uma mistura de sulfite com caneta bic azul e lagrimas, assim.. Tudo junto. Eu li, reli e só conseguia ficar mais triste, mais confusa do que eu já sou. Fiquei revendo a carta por horas até pegar no sono com o barulho da chuva lá fora. E quando eu abri os olhos de novo, o mundo continuava lá, pronto pra ser explorado, o céu estava azul de novo, eu já não me sentia sozinha. Momentos ruins são como labirintos e você não pode desistir de procurar a saída pra todo problema. Se as pessoas parecem de guardar as pequenas coisas que as machucam, isso não viraria algo tão grande.” — Não há conselheiro melhor que o seu travesseiro.
A simples entrada de minha mãe no quarto já consegue me fazer sentir bem. Seus brilham e mudam de cor com a luz. O sorriso é quente como uma manta. Ela tem alguns poucos fios grisalhos misturados com os longos cabelos castanhos, mas nunca penso nela como uma pessoa velha. Quando me olha, é como se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma das ruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou dizer uma palavra indelicada para ninguém, nem mesmo para mim ou Gabe.
— Ah, Percy. — Ela me abraçou apertado. — Eu não acredito. Você cresceu desde o Natal!
O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce América, tinha o cheiro das melhores coisas do mundo: chocolate, alcaçuz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Grande Estação Central. Tinha levado para mim um belo saco de "amostras grátis", como sempre fazia quando eu ia para casa.
Sentamos juntos na beirada da cama. Enquanto eu atacava os doces de mirtilo, ela passava a mão no meu cabelo e queria saber tudo o que eu não havia escrito nas cartas. Nada mencionou sobre o fato de eu ter sido expulso. Não parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seu menininho estava bem?
Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que desse um tempo e tal, mas, secretamente, estava feliz demais em vê-la.
Do outro cômodo, Gabe berrou:
— Ei, Sally! Que tal um pouco de pasta de feijão, hein?
Eu rangi os dentes.
Minha mãe é a mulher mais gentil do mundo. Devia ter se casado com um milionário, não com um imbecil como o Gabe.
Por ela, tentei parecer otimista em relação aos meus últimos dias na Academia Yancy. Disse-lhe que não estava muito chateado com a expulsão. Dessa vez, conseguir durar quase o ano inteiro. Eu havia feito novos amigos. Tinha me saído muito bem em latim. E, honestamente, as brigas não tinham sido tão ruins como dissera o diretor. Eu tinha gostado da Academia Yancy. De verdade. Enfeitei tanto os acontecimentos do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com a voz embargada só de pensar em Grover e no sr. Brunner. Até Nancy Bobofit de repente não pareceu assim tão má.
Até aquela excursão ao museu...
— O quê? — perguntou minha mãe. Seus olhos puxaram pela minha consciência, tentando arrancar os segredos. — Alguma coisa assustou você?
— Não, mamãe.
Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a sra. Dodds e as três velhas com o fio de lã, mas achei que aquilo pareceria bobagem.
Ela apertou os lábios. Sabia que eu estava escondendo alguma coisa, mas não quis me pressionar.
— Tenho uma surpresa para você — disse ela. — Nós vamos á praia.
Meus olhos se arregalaram.
— Montauk?
— Três noites... no mesmo chalé.
— Quando?
Ela sorriu.
— Assim que eu me trocar.
Mal pude acreditar. Minha mãe e eu não tínhamos ido a Montauk nos últimos dois verões porque Gabe dissera que não havia dinheiro suficiente.
Gabe apareceu no vão da porta e rosnou.
— Pasta de feijão, Sally. Você não ouviu?
Tive vontade de dar-lhe um soco, mas meus olhos encontraram os da minha mãe e entendi que ela estava me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe só um pouquinho. Só até ela estar pronta para ir para Montauk. Então sairíamos dali.
— Eu já estava a caminho, meu bem — disse ela a Gabe. — Estávamos só conversando sobre a viagem.
Os olhos de Gabe se apertaram.
— A viagem? Você quer dizer que estava falando disso a sério?
— Eu sabia — murmurei. — Ele não vai nos deixar ir.
— É claro que vai — disse minha mãe calmamente. — Seu padrasto só está preocupado com o dinheiro. É tudo. Além disso — acrescentou —, Gabriel não terá de se contentar com pasta de feijão. Vou fazer para ele uma pasta de sete camadas suficiente para todo o fim de semana. Guacamole. Creme azedo. Serviço completo.
Gabe amaciou um pouco.
— Então esse dinheiro para a viagem... vai sair do seu orçamento para roupas, certo?
— Sim, meu bem — disse minha mãe.
— E você não vai com meu carro para lugar nenhum, só vai usar na ida e na volta.
— Seremos muito cuidadosos.
Gabe coçou seu queixo duplo.
— Talvez se você andar logo com essa pasta de sete camadas... E talvez se o garoto pedir desculpas por interromper meu jogo de pôquer...
Talvez se eu chutar você no seu ponto sensível, pensei. E fizer você soprar com voz de soprano por uma semana.
Mas os olhos da minha mãe me advertiram para não deixá-lo zangado.
Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que ele pensava?
— Desculpe — murmurei. — Sinto muito ter interrompido seu importantíssimo jogo de pôquer. Por favor, volte a ele agora mesmo.
Os olhos de Gabe se estreitaram. O cérebro minúsculo provavelmente estava tentando detectar o sarcasmo na minha frase.
— Está bem, seja lá o que for — convenceu-se.
E voltou para o jogo.
— Obrigada, Percy — disse minha mãe. — Depois que chegarmos a Montauk, vamos conversar mais sobre... o que quer que você tenha se esquecido de me contar, certo?
Por um momento, pensei ter visto ansiedade nos olhos dela — o mesmo medo que vira em Grover na viagem de ônibus —, como se minha mãe também estivesse sentindo um estranho calafrio no ar.
Mas então o sorriso dela voltou e concluí que devia estar enganado. Ela despenteou meu cabelo e foi fazer a pasta de sete camadas para Gabe.
Uma hora depois estávamos prontos para partir.
Gabe interrompeu seu jogo de pôquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malas da minha mãe para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida dela — e mais importante, sem seu Camaro 78 — durante todo o fim de semana.
— Nem um arranhão nesse carro, geninho — advertiu-me quando eu estava carregando a última mala. — Nem um arranhãozinho.
CONTINUA
domingo, 20 de outubro de 2013
08 - O Ladrão de Raios
“Todos deveriam ter um lugar favorito no universo, um lugar que dê a sensação de que você vai escapar do que for, de seja lá o que você está sentindo. Aquele lugar onde as pessoas de quem você gosta vão te procurar quando você provavelmente sumiu por não aguentar a barra, como acontece no cinema, quando os personagens estão perdidos, prostrados ou loucos de amor.” — Gabito Nunes.
Hora da confissão: descartei Grover assim que chegamos ao terminal rodoviário.
Eu sei, eu sei. Foi rude. Mas Grover estava me deixando fora de mim, me olhando como se eu fosse um homem morto, murmurando: "Por que sempre tem de ser no sétimo ano?"
Sempre que Grover ficava nervoso, sua bexiga entrava em ação, portanto não fiquei surpreso quando, assim que descemos do ônibus, ele me fez prometer que o esperaria e foi direto para o banheiro. Em vez de esperar, peguei minha mala, saí discretamente e tomei o primeiro táxi saindo do Centro.
— Cento e quatro Leste com Primeira Avenida — disse ao motorista.
Uma palavra sobre a minha mãe, antes que você a conheça.
Seu nome é Sally Jackson e ela é a melhor pessoa do mundo, o que apenas prova minha teoria de que as melhores pessoas são as mais azaradas. Os pais morreram em um desastre de avião quando ela estava com cinco anos, e então foi criada por um tio que não lhe dava muita bola. Queria ser escritora, assim passou o curso de ensino médio trabalhando e economizando dinheiro para pagar uma faculdade com um bom programa de oficinas literárias. Então o tio teve câncer e ela precisou abandonar a escola no último ano para cuidar dele. Depois que ele morreu, ela ficou sem dinheiro nenhum, sem família e sem diploma.
A única coisa boa que lhe aconteceu foi conhecer meu pai.
Não tenho nenhuma lembrança dele, apenas essa espécie de sensação calorosa, talvez o mais leve resquício de seu sorriso. Minha mãe não gosta de falar sobre ele porque isso a deixa triste. Ela não tem fotografias.
Veja bem, eles não eram casados. Ela me contou que ele era rico e influente, e o relacionamento deles era um segredo. Então um dia ele zarpou pelo Atlântico em alguma jornada importante, e nunca mais voltou.
Perdido no mar, minha mãe me contou. Não morto. Perdido no mar.
Ela vivia de trabalhos esporádicos, estudava á noite para tirar o diploma de ensino médio e me criou sozinha. Nunca se queixava ou ficava zangada. Nem uma só vez. Mas eu sabia que não era uma criança fácil.
Acabou se casando com Gabe Ugliano, que foi simpático nos primeiros trinta segundos em que o conhecemos e depois mostrou quem realmente era, um imbecil de marca maior. Quando eu era pequeno, apelidei-o de Gabe Cheiroso. Sinto muito, mas é a verdade. O cara fedia a pizza de alho embolorada enrolada num calção de ginástica.
Em nosso fogo cruzado, tornávamos a vida da minha mãe bem difícil. O modo como Gabe Cheiroso a tratava, o jeito como ele e eu nos relacionávamos... bem, um bom exemplo é minha chegada em casa.
Entrei em nosso pequeno apartamento, esperando que minha mãe já tivesse voltado do trabalho. Em vez disso, Gabe Cheiroso estava na sala de estar, jogando pôquer com seus cupinchas. Na televisão, o canal de esportes estava no volume máximo. Havia batatinhas e latas de cerveja espalhadas pelo tapete.
Mal erguendo os olhos, ele disse com o cigarro na boca:
— Então você está em casa.
— Onde está a minha mãe?
— Trabalhando — disse ele. — Você tem alguma grana?
E foi isso. Nada de Bem-vindo ao lar. Bom ver você. O que fez nos últimos seis meses?
Gabe tinha engordado. Parecia uma morsa sem tromba com roupas de brechó. Tinha uns três fios de cabelo na cabeça, todos penteados por cima da careca, como se isso o deixasse bonito, ou coisa assim.
Era gerente do Hipermercado de Eletrônica, no Queens, mas passava a maior parte do tempo em casa. Não sei porque ainda não tinha sido demitido. Ele só ficava recebendo o pagamento, gastando o dinheiro em charutos que me dão náuseas e em cerveja, é claro. Sempre cerveja. Toda vez que eu estava em casa ele esperava que eu lhe fornecesse fundos para jogar. Chamava isso de nosso "segredo de homem". Isto é, se eu contasse para a minha mãe, ele me quebrava a cara.
— Não tenho grana nenhuma — falei.
Ele ergueu uma sobrancelha oleosa.
Gabe era capaz de farejar dinheiro como um cão de caça, o que era surpreendente, já que seu próprio cheiro deveria encobrir qualquer outro.
— Você pegou um táxi no terminal de ônibus — disse ele. — Provavelmente pagou com uma nota de vinte. Recebeu seis ou sete dólares de troco. Alguém que espera viver embaixo deste teto devia ser capaz de se sustentar. Estou certo, Eddie?
Eddie, o síndico do prédio, olhou para mim com uma pontinha de solidariedade.
— Vamos, Gabe — disse ele. — O garoto acabou de chegar.
— Estou certo? — repetiu Gabe.
Eddie fez uma careta para sua tigela de pretzels. Os outros dois caras soltaram juntos seus gases.
— Tudo bem — disse eu. Tirei um maço de dólares do bolso e joguei o dinheiro em cima da mesa. — Tomara que você perca.
— Seu boletim chegou, geninho! — gritou ele ás minhas costas. — Eu não ficaria tão metido!
Bati a porta do meu quarto, que na verdade não era meu. Durante os meses de aula era a "sala de estudos" de Gabe. Ele não "estudava" coisa nenhuma lá, exceto revistas de automóveis, mas adorava socar as minhas coisas no armário, largar as botas enlameadas no peitoril da janela e fazer o possível para deixar o lugar com o cheiro de sua colônia detestável, charutos e cerveja choca.
Larguei a mala em cima da cama. Lar doce lar.
O cheiro de Gabe era quase pior que os pesadelos com a sra. Dodds ou o som da tesoura daquela velha enrugada cortando o fio de lã.
Mas assim que pensei naquilo minhas pernas bambearam. Lembrei-me da expressão de pânico de Grover — de como ele me fizera prometer que não iria para casa sem ele. Um calafrio repentino me percorreu. Era como se alguém — alguma coisa — estivesse procurando por mim naquele momento, talvez subindo pesadamente a escada, com garras compridas e horrendas crescendo.
Então ouvi a voz da minha mãe.
— Percy?
Ela abriu a porta do quarto, e meus medos se foram.
CONTINUA
sábado, 19 de outubro de 2013
07 - O Ladrão de Raios
“Os homens de profunda tristeza se denunciam quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme - eles sabem muito bem como ela escapa!” — Friedrich Nietzsche, Além do Bem e do Mal.
— Grover — disse eu —, do que exatamente você está me protegendo?
Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo dos nossos pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o Greyhound com dificuldade até o acostamento.
Depois de alguns minutos fazendo alguns sons metálicos no compartimento do motor, o motorista anunciou que teríamos de descer. Grover e eu saímos em fila com todos os outros.
Estávamos em um trecho de estrada rural — um lugar que a gente nem notaria se não tivesse enguiçado lá. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos e lixo jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente.
As coisas á venda pareciam realmente boas: caixas transbordando de cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com pés em forma de patas, cheia de gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço á sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.
Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de suéteres, mas, obviamente, eram meias. A senhora da direita tricotava uma delas. A da esquerda tricotava outra. A do meio segurava uma enorme cesta de lã azul brilhante.
As três mulheres pareciam muito velhas, com o rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com lenço branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.
A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim.
Encarei Grover para comentar isso e vi que seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia.
— Grover? — disse eu. — Ei, cara...
— Diga que elas não estão olhando para você. Estão, não é?
— Estão. Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?
— Não tem graça, Percy. Não tem graça nenhuma.
A velha do meio pegou uma tesoura imensa — dourada e prateada, de lâminas longas, como uma tosquiadeira. Ouvi Grover tomar fôlego.
— Vamos entrar no ônibus — ele me disse. — Venha.
— O quê? — disse eu. — Lá dentro está fazendo quinhentos graus.
— Venha! — Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.
Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim. A do meio cortou o fio de lã, e posso jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas de trânsito. As duas amigas dela enrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria aquilo — o Pé Grande ou o Godzilla
Na traseira do ônibus, o motorista arrancou um grande pedaço de metal fumegante do compartimento do motor. O ônibus estremeceu e o motor voltou á vida, roncando.
Os passageiros aplaudiram.
— Tudo em ordem! — gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com chapéu. — Todo o mundo para dentro!
Quando já estávamos a caminho, comecei a me sentir febril, como se tivesse pego uma gripe.
Grover não pareceu muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes.
— Grover?
— Sim?
— O que me diz?
Ele enxugou a testa com a manga da camisa.
— Percy, o que você viu lá atrás, na banca de frutas?
— Você quer dizer, aquelas velhas? O que há com elas, cara? Elas não são como... a sra. Dodds, são?
A expressão dele era difícil interpretar, mas tive a sensação de que as velhas da banca de frutas eram algo muito, muito pior do que a sra. Dodds. Grover disse:
— Só me diga o que você viu.
— A do meio pegou a tesoura e cortou o fio.
Ele fechou os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal da cruz, mas não era isso. Era outra coisa, algo um tanto... mais antigo.
Ele disse:
— Você a viu cortar o fio.
— Sim. E daí? — Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.
— Isso não está acontecendo — murmurou Grover. Ele começou a morder o dedão. — Não quero que seja como na última vez.
— Que última vez?
— Sempre o sétimo ano. Eles nunca passam do sétimo.
— Grover — disse eu, porque ele estava realmente começando a me assustar —, do que você está falando?
— Deixe que eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.
Aquele me parecia um pedido estranho, mas prometi.
— É uma superstição ou coisa assim? — perguntei.
Nenhuma resposta.
— Grover... aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?
Ele olhou para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo e flores que eu gostaria mais de ter em meu caixão.
CONTINUA
06 - O Ladrão de Raios
“Então você percebe que se apegou demais, e que já não é possível viver sem aquela pessoa.” — Reter-te.
— Está com uma cara horrível. — Ele franziu a testa. — Tudo bem?
— Só estou cansado.
Virei-me para que ele não pudesse perceber minha expressão e comecei a me preparar para dormir.
Não entendi o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo.
Mas uma coisa estava clara: Grover e o sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas. Achavam que eu corria algum tipo de perigo.
Na tarde seguinte, quando estava saindo da prova de latim de três horas, atordoado com todos os nomes gregos e romanos que tinha escrito errado, o sr. Brunner me chamou de volta.
Por um momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na noite anterior, mas não parecia ser esse o problema.
— Percy — disse ele. — Não fique desanimado por deixar Yancy. É... é para o seu bem.
Seu tom era gentil, mas ainda assim as palavras me deixaram sem graça. Embora ele estivesse falando baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou um sorriso falso e, sarcasticamente, fez pequenos movimentos de beijo com os lábios.
Eu murmurei:
— Está bem, senhor.
— Quer dizer... — O sr. Brunner andou com a cadeira para trás e para a frente, como se não tivesse certeza do que falar. — Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão de tempo.
Meus olhos ardiam.
Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz. Depois de falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava destinado a ser expulso.
— Certo — disse eu, tremendo.
— Não, não — disse o sr. Brunner. — Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer... é que você não é normal, Percy. Não é nada ser...
— Obrigado — soltei. — Muito obrigado, senhor, por me lembrar.
— Percy...
Mas eu já tinha ido.
No último dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala.
Os outros garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as férias. Um deles ia fazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro de um mês pelo Caribe. Eram delinquentes juvenis como eu, mas delinquentes juvenis ricos. Os papais eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era um joão-ninguém, de uma família de joões-ninguém.
Eles me perguntaram o que ia fazer no verão, e eu disse que voltaria para a cidade.
O que não lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de verão passeando com cachorros ou vendendo assinaturas de revistas, e passar o tempo livro pensando em onde iria estudar no outono.
— Ah — disse um dos garotos. — Legal.
Eles voltaram a conversa como se eu não existisse.
A única pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as coisas aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhattan no mesmo ônibus Greyhound que eu, então lá estávamos nós, juntos outra vez, indo para a cidade.
Durante toda a viagem de ônibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os outros passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando saíamos de Yancy, como se esperasse que algo ruim fosse acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo de que o provocassem. Mas não havia ninguém para fazer isso no Greyhound.
Finalmente, não pude mais aguentar.
— Procurando Benevolentes?
Grover quase pulou do assento.
— O que... o que você quer dizer?
Confessei ter ouvido a conversa dele com o sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.
O olho de Grover estremeceu.
— Quanto você ouviu?
— Ah... não muito. O que é prazo final do solstício de verão?
Ele se esquivou.
— Olhe, Percy... Eu só estava preocupado com você, entende? Quer dizer, tendo alucinações com professoras de matemática demoníacas...
— Grover...
— E eu estava dizendo ao sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou coisa assim, porque não havia uma pessoa chamada sra. Dodds e...
— Grover, você mente muito mal mesmo.
As orelhas dele ficaram cor-de-rosa.
Do bolso da camisa, ele pescou um cartão de visitas encardido.
— Pegue isto, certo? Para o caso de você precisar de mim neste verão.
O cartão tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos disléxicos, mas por fim consegui identificar alguma coisa como:
Grover Underwood
Guardião
Colina Meio-Sangue
Long Island, Nova York
(800) 009-0009
— O que é Colina Meio...
— Não fale alto! — ganiu. — É meu, ah... endereço de verão.
Meu coração desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a família dele poderia ser tão rica quanto as dos outros em Yancy.
— Certo — falei, mal-humorado. — Tá, se eu quiser fazer uma visita á sua mansão.
Ele assentiu.
— Ou... ou se você precisar de mim.
— Porque eu iria precisar de você?
Saiu mais rude do que eu pretendia.
Grover ficou com a cara toda vermelha.
— Olhe, Percy, a verdade é que eu... eu tenho, de certo modo, que proteger você.
Olhei fixamente para ele.
Durante o ano inteiro me meti em brigas para manter os valentões longe dele. Perdi o sono temendo que, sem mim, ele fosse apanhar no ano que vem. E ali estava Grover agindo como se fosse ele a me defender.
CONTINUA
05 - O Ladrão de Raios
“Eu consigo perceber, o momento que você sabe não ser uma historia triste, você está vivo. Você se levanta e vê as luzes dos prédios e tudo que te faz pensar. Ouve aquela musica na estrada com a pessoa que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.” — As Vantagens de ser Invisível.
Eu não tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, á noite, visões da sra. Dodds com garras e asas de couro me faziam acordar suando frio.
O tempo maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de raios arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias depois, o maior tornado jamais visto no vale do Hudson tocou o chão a apenas trinta quilômetros da Academia Yancy. Um dos eventos correntes que aprendemos na aula de estudos sociais era o número inusitado de pequenos aviões que caíram em súbitos vendavais no Atlântico naquele ano.
Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram de D para F. Entre em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto para fora da sala e tinha de ficar no corredor em quase todas as aulas.
Finalmente, quando o nosso professor de inglês, o sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima vez porque eu tinha tanta preguiça de estudar para as provas de ortografia, eu explodi. Chamei-o de velho dipsomaníaco. Não sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem.
O diretor mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não seria convidado a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte.
Ótimo, disse a mim mesmo. Simplesmente ótimo.
Eu estava com saudades de casa.
Queria ficar com minha mãe no nosso pequeno apartamento no Upper East Side, mesmo que tivesse de frequentar uma escola pública e aturar meu padrasto detestável e seus jogos de pôquer estúpidos.
E no entanto... havia coisas em Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha janela para os bosques, o rio Hudson a distância, o cheiro dos pinheiros. Sentiria falta de Grover, que tinha sido um bom amigo, mesmo com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao próximo ano sem mim.
Também sentiria falta da aula de latim — os dias malucos de torneio do sr. Brunner e sua confiança em que eu poderia me sair bem.
Quando a semana de exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual eu estudava. Não tinha me esquecido do que o sr. Brunner falara, sobre essa matéria ser questão de vida ou morte para mim. Não sabia muito bem por quê, mas começara a acreditar nele.
Na noite anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega do outro lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora da página, dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate. Não havia jeito de eu me lembrar da diferença entre Quíron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar aqueles verbos latinos? Nem pensar.
Fiquei indo de um lado para outro no quarto, com a sensação de que havia formigas andando por dentro da minha camisa.
Lembrei a expressão séria do sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Respirei fundo. Peguei o livro de mitologia.
Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o sr. Brunner, quem sabe ele me daria algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo grande F que ia tirar na prova. Não queria sair da Academia Yancy deixando-o pensar que eu não tinha me esforçado.
Desci a escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas a porta do sr. Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso do corredor.
Eu estava a três passos da maçaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala. O sr. Brunner tinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dúvida, era a de Grover disse: "... preocupado com Percy, senhor."
Eu gelei.
Normalmente não sou bisbilhoteiro, mas desafio alguém a não tentar ouvir quando seu melhor amigo está falando sobre você com um adulto.
Cheguei um pouquinho mais perto.
— ... sozinho nesse verão — Grover estava dizendo. — Quer dizer, uma Benevolente na escola! Agora que sabemos com certeza, e eles também sabem...
— Só vamos piorar as coisas se o apressarmos — disse o sr. Brunner. — Precisamos que o menino amadureça mais.
— Mas ele pode não ter tempo. O prazo final do solstício de verão...
— Terá de ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorância enquanto ainda pode.
— Senhor, ele a viu...
— Imaginação dele — insistiu o sr. Brunner. — A Névoa sobre os alunos e a equipe será suficiente para convencê-lo disso.
— Senhor, eu... eu não posso fracassar nas minhas tarefas de novo. — A voz de Grover estava embargada de emoção. — Sabe o que isso significaria.
— Você não fracassou, Grover — disse o sr. Brunner gentilmente. — Eu deveria tê-la visto como ela era. Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo até o próximo outono...
O livro de mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.
O sr. Brunner silenciou.
Com o coração disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor.
Uma sombra deslizou pelo vidro iluminado da porta da sala de Brunner, a sombra de algo muito mais alto do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa suspeitamente parecido com o arco de um arqueiro.
Abri a porta mais próxima e me esgueirei para dentro.
Alguns segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop, como blocos de madeira abafados, depois um som como o de um animal farejando bem na frente da minha porta. Um grande vulto escuro parou diante do vidro e depois seguiu adiante.
Uma gota de suor escorreu por meu pescoço.
Em algum lugar no corredor, o sr. Brunner falou.
— Nada — murmurou ele. — Meus nervos não andam muito bons desde o solstício de inverno.
— Nem os meus — disse Grover. — Mas eu podia ter jurado...
— Volte para o dormitório — disse-lhe o sr. Brunner. — Você tem um longo dia de provas amanhã.
— Nem me lembre.
As luzes se apagaram na sala do sr. Brunner.
Aguardei no escuro pelo que pareceu uma eternidade.
Por fim, me esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitório.
Grover estava deitado na cama, estudando as anotações para a prova de latim como se tivesse estado lá a noite inteira.
— Ei! — disse ele, com olhar de sono. — Vai estar preparado para a prova?
Não respondi.
CONTINUA
04 - O Ladrão de Raios
“E agora você está longe e só te encontro nos meus sonhos. Tudo perdeu a graça e o meu único desejo é dormir. Não pra esquecer ou fugir da realidade, mas pra te encontrar. Dormir pra te encontrar…” — Reter-te.
— Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada — a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
Ela rosnou:
— Morra, meu bem!
E voou para cima de mim.
Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada além do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
Eu estava sozinho.
Havia uma caneta esferográfica na minha mão.
O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim.
Será que eu havia imaginado tudo aquilo?
Voltei para o lado de fora.
Tinha começado a chover.
Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando em viu, disse:
— Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
— Quem? — respondi.
— Nossa professora. Dãã!
Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando.
Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
— Quem? — respondeu ele.
Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
— Não tem graça, cara — disse a ele. — Isso é sério.
Um trovão estourou no alto.
Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido.
Fui até ele.
Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
— Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
— Senhor — disse eu —, onde está a sra. Doods?
Ele olhou para mim com a expressão vazia.
— Quem?
— A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação á álgebra.
Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
— Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?
Eu estava acostumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas passavam depressa. Aquela alucinação vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia estar me pregando algum tipo de peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de que a sra. Kerr — uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão — era nossa professora de iniciação á álgebra desde o Natal.
De vez em quando eu soltava uma referência á sra. Dodds para cima de alguém, só para ver se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.
Acabei quase acreditando neles: a sra. Dodds nunca tinha existido.
Quase.
Mas Grover não conseguia me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava, depois alegava que ela não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.
Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.
CONTINUA
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
03 - O Ladrão de Raios
“Deitar na cama, abraçar o travesseiro, e pensar em você.. Virou rotina. Imaginar seu sorriso, doce e leve. Isso me trás sorrisos bobos, suspiros profundos, lembranças ótimas. E de tanto imaginar momentos ao seu lado, caio no sono com sua imagem em minha mente.” — Meu Coração.
Observei os táxis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos sentados. Eu não a via desde o Natal. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente de me ver, mas também ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria de que preciso me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o olhar triste que ela me lançaria.
O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as amigas feiosas — imagino que tivesse se cansado de roubar aos turistas — e deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
— Oops. — Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos líquido.
Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão de vezes: "Conte até dez, controle seu gênio." Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos.
Não me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no chafariz, berrando:
— Percy me empurrou!
A sra. Dodds se materializou ao nosso lado.
Algumas das crianças estavam sussurrando:
— Você viu...
— ... a água...
— ... parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de presentes do museu etc e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo qual ela esperara o semestre inteiro:
— Agora, meu bem...
— Eu sei — resmunguei. — Um mês apagando livros de exercícios.
Não foi a coisa certa para dizer.
— Venha comigo — disse a sra. Dodds.
— Espere! — guinchou Grover. — Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da sra. Dodds.
Ela lançou um olhar tão furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
— Acho que não, sr. Underwood — disse ela.
— Mas...
— Você... vai... ficar... aqui.
Grover me olhou desesperadamente.
— Tudo bem, cara — disse a ele. — Obrigado por tentar.
— Meu bem — latiu a sra. Dodds para mim. — Agora.
Nancy Bobofit deu um sorriso falso.
Lancei-lhe meu olhar de "vou acabar com a sua raça". Então me virei para enfrentar a sra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava postada á entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.
Como ela chegou lá tão depressa?
Tenho milhares de momentos desse tipo — meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta certeza.
Fui atrás da sra. Dodds.
No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo os olhos entre mim e o sr. Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor estava absorto em seu romance.
Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes.
Mas aparentemente não era esse o plano.
Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estávamos de volta á seção greco-romana.
A não ser por nós, a galeria estava vazia.
A sra. Dodds estava postada de braços cruzados na frente de um grande friso de mármore com os deuses gregos. Ela fazia um ruído estranho com a garganta, como um rosnado.
Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora, especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulverizá-lo...
— Você está nos criando problemas, meu bem — disse ela.
Fiz o que era seguro. Disse:
— Sim, senhora.
Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro.
— Você achou mesmo que ia se safar desta?
A expressão em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa.
Ela é uma professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar.
Eu disse:
— Eu... eu vou me esforçar mais, senhora.
Um trovão sacudiu o edifício.
— Nós não somos bobos, Percy Jackson — disse a sra. Dodds. — Seria apenas uma questão de tempo até que o descobríssemos.
Eu não sabia do que ela estava falando.
Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre Tom Sawyer na internet sem nem ter lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a ler o livro.
— E então? — exigiu.
— Senhora, eu não...
— O seu tempo se esgotou — sibilou ela.
Então algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas — e estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.
O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas até o vão da porta da galeria, segurando uma caneta.
CONTINUA
02 - O Ladrão de Raios
Ela me apontava o dedo torto e dizia: "Agora, meu bem", com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
— Você está certíssimo.
O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado da estela, e eu me virei e disse:
— Quer calar a boca?
Saiu mais alto do que eu pretendia.
O grupo inteiro deu risada. O sr. Brunner interrompeu sua história.
— Sr. Jackson — disse ele —, fez algum comentário?
Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
— Não, senhor.
O sr. Brunner para uma das figuras na estela.
— Talvez possa nos dizer o que essa figura representa.
Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
— É Cronos comendo os filhos, certo?
— Sim — disse o Sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. — E ele fez isso porque...
— Bem... — eu quebrei a cabeça para me lembrar. — Cronos era o deus-rei e...
— Rei? — perguntou o sr. Brunner.
— Titã — eu me corrigi. — E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs...
— Eca! — disse uma das meninas atrás de mim.
— ... e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs — continuei —, e os deuses venceram.
Algumas risadinhas do grupo.
Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
— Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar na nossa entrevista de emprego: "Por favor, explique porque Cronos comeu seus filhos."
— E porque, sr. Jackson — disse o sr. Brunner —, parafraseando a excelente pergunta da srta. Bobofit, isso importa na vida real?
— Se ferrou — murmurou Grover.
— Cale a boca — chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo de errado. Tinha ouvidos de radar.
Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
— Não sei, senhor.
— Entendo. — O sr. Brunner pareceu desapontado. — Bem, meio ponto, sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortaram-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
Grover estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
— Sr. Jackson;.
Eu sabia o que vinha a seguir.
Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
— Senhor?
O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora — olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
— Você precisa aprender a responder á minha pergunta — disse ele.
— Sobre os titãs?
— Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
— Ah.
— O que você aprende comigo — disse ele — é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava "Olé!" e nos desafiava, ponta de espada contra giz, a correr para o quadro negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de c-. Não — ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.
Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
Ele me disse para sair e comer meu lanche.
A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêncios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando.
Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquistões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
— Detenção? — perguntou Grover.
— Não — disse eu. — Não do Brunner. Eu só gostaria que ele ás vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum tipo de comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
— Posso comer sua maçã?
Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.
CONTINUA
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013
11 - O Ladrão de Raios
— Tentei manter você tão perto de mim quanto pude — falou minha mãe. — Eles me disseram que isso era um erro. Mas só havia uma outra opção, Percy... o lugar para onde seu pai queria mandá-lo. E eu simplesmente... simplesmente não poderia aguentar ter de fazer isso.
— Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
— Não uma escola — disse ela suavemente. — Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai — que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer — teria falado com minha mãe sobre uma acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
— Desculpe, Percy — continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. — Mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
— Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.
Naquela noite, eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar um ao outro á beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem mais arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que rachava árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
— Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada — alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
— Procurei a noite toda — arquejou ele. — O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada — não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
— Percy — disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. — O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
— O Zeu kai alloi theoi! — gritou ele. — Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças — e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
— Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
Ela agarrou sua bolsa, jogou para mim a minha capa de chuva e disse:
— Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro — mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Havia cascos fendidos.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava de excursões do jardim de infância para o zoológico infantil — lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
— Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
— Não exatamente — disse ele. — Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
— Observando a mim?
— Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo — acrescentou apressadamente. — Eu sou seu amigo.
— Ahn... o que é você, exatamente?
CONTINUA
— Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
— Não uma escola — disse ela suavemente. — Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai — que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer — teria falado com minha mãe sobre uma acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
— Desculpe, Percy — continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. — Mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
— Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.
Naquela noite, eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar um ao outro á beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem mais arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que rachava árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
— Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada — alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
— Procurei a noite toda — arquejou ele. — O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada — não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
— Percy — disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. — O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
— O Zeu kai alloi theoi! — gritou ele. — Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças — e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
— Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
Ela agarrou sua bolsa, jogou para mim a minha capa de chuva e disse:
— Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro — mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Havia cascos fendidos.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava de excursões do jardim de infância para o zoológico infantil — lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
— Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
— Não exatamente — disse ele. — Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
— Observando a mim?
— Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo — acrescentou apressadamente. — Eu sou seu amigo.
— Ahn... o que é você, exatamente?
CONTINUA
10 - O Ladrão de Raios
Como se eu fosse dirigir aos doze anos. Mas isso não importava para Gabe. Se alguma gaivota fizesse cocô na pintura, ele arranjaria um jeito de me culpar.
Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou á porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.
Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
Eu adorava o lugar.
Íamos para lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia porque a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
Á medida que nos aproximavámos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficando da cor do mar.
Chegamos lá ao pôr-do-sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho ás gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
Acho que eu devia explicar a comida azul.
Veja bem, Gabe uma vez disse á minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversário azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso — junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano — era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para a rebeldia, como eu.
Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
Finalmente, reuni coragem para perguntar o que sempre me vinha á cabeça quando íamos a Montauk — meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d'água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
— Ele era gentil, Percy — disse ela. — Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo preto dele, você sabe, e os olhos verdes.
Mamãe pescou uma jujuba azul do saco de doces.
— Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
— Que idade eu tinha? — perguntei. — Quer dizer... quando ele se foi?
Ela olhou para as chamas.
— Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
— Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.
— Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
Tentei conciliar isso com o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre o meu pai. Uma sensação calorosa. Um sorriso.
Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
Fiquei com raiva de meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ele nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
— Você vai me mandar embora de novo? — perguntei a ela. — Para outro internato?
Ela puxou um marshmallow do fogo.
— Eu não sei, meu bem. — Sua voz soou muito séria. — Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
— Por que você não quer me ver por perto? — Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
Os olhos da minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
— Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito — que era melhor para mim deixar Yancy.
— Porque eu não sou normal? — disse eu.
— Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
— Em segurança por quê?
Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças — todas as coisas esquisitas, assustadoras que sempre me aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
No quarto ano, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da cabeça.
Antes disso — uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com minhas mãos gorduchas de bebê.
Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair.
Eu sabia que devia contar á minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a notícia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.
CONTINUA
Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou á porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.
Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
Eu adorava o lugar.
Íamos para lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia porque a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
Á medida que nos aproximavámos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficando da cor do mar.
Chegamos lá ao pôr-do-sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho ás gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
Acho que eu devia explicar a comida azul.
Veja bem, Gabe uma vez disse á minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversário azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso — junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano — era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para a rebeldia, como eu.
Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
Finalmente, reuni coragem para perguntar o que sempre me vinha á cabeça quando íamos a Montauk — meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d'água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
— Ele era gentil, Percy — disse ela. — Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo preto dele, você sabe, e os olhos verdes.
Mamãe pescou uma jujuba azul do saco de doces.
— Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
— Que idade eu tinha? — perguntei. — Quer dizer... quando ele se foi?
Ela olhou para as chamas.
— Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
— Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.
— Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
Tentei conciliar isso com o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre o meu pai. Uma sensação calorosa. Um sorriso.
Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
Fiquei com raiva de meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ele nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
— Você vai me mandar embora de novo? — perguntei a ela. — Para outro internato?
Ela puxou um marshmallow do fogo.
— Eu não sei, meu bem. — Sua voz soou muito séria. — Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
— Por que você não quer me ver por perto? — Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
Os olhos da minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
— Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito — que era melhor para mim deixar Yancy.
— Porque eu não sou normal? — disse eu.
— Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
— Em segurança por quê?
Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças — todas as coisas esquisitas, assustadoras que sempre me aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
No quarto ano, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da cabeça.
Antes disso — uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com minhas mãos gorduchas de bebê.
Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair.
Eu sabia que devia contar á minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a notícia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.
CONTINUA
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
09 - O Ladrão de Raios
“Peguei um sulfite em branco e comecei a escrever tudo o que eu sentia. Mas um sulfite era pouco, peguei doze logo de uma vez e fui escrevendo sem me questionar sobre coerência, pontuação ou se estava ficando bom, eu só precisava tirar todo esse peso de mim. Eu escrevi sobre minha infância.. Sobre todos os momentos felizes e todos aqueles em que eu quis sumir, sobre os meus pais, sobre as pessoas que foram embora me deixando com um buraco no peito e com perguntas que até hoje eu não sei responder. Escrevi sobre toda aquela parte de mim que eu sempre insisto em querer esquecer e de tanto pensar em esquecer, eu lembro. Eu chorei por horas lendo aquelas coisas que acabaram virando uma mistura de sulfite com caneta bic azul e lagrimas, assim.. Tudo junto. Eu li, reli e só conseguia ficar mais triste, mais confusa do que eu já sou. Fiquei revendo a carta por horas até pegar no sono com o barulho da chuva lá fora. E quando eu abri os olhos de novo, o mundo continuava lá, pronto pra ser explorado, o céu estava azul de novo, eu já não me sentia sozinha. Momentos ruins são como labirintos e você não pode desistir de procurar a saída pra todo problema. Se as pessoas parecem de guardar as pequenas coisas que as machucam, isso não viraria algo tão grande.” — Não há conselheiro melhor que o seu travesseiro.
A simples entrada de minha mãe no quarto já consegue me fazer sentir bem. Seus brilham e mudam de cor com a luz. O sorriso é quente como uma manta. Ela tem alguns poucos fios grisalhos misturados com os longos cabelos castanhos, mas nunca penso nela como uma pessoa velha. Quando me olha, é como se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma das ruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou dizer uma palavra indelicada para ninguém, nem mesmo para mim ou Gabe.
— Ah, Percy. — Ela me abraçou apertado. — Eu não acredito. Você cresceu desde o Natal!
O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce América, tinha o cheiro das melhores coisas do mundo: chocolate, alcaçuz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Grande Estação Central. Tinha levado para mim um belo saco de "amostras grátis", como sempre fazia quando eu ia para casa.
Sentamos juntos na beirada da cama. Enquanto eu atacava os doces de mirtilo, ela passava a mão no meu cabelo e queria saber tudo o que eu não havia escrito nas cartas. Nada mencionou sobre o fato de eu ter sido expulso. Não parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seu menininho estava bem?
Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que desse um tempo e tal, mas, secretamente, estava feliz demais em vê-la.
Do outro cômodo, Gabe berrou:
— Ei, Sally! Que tal um pouco de pasta de feijão, hein?
Eu rangi os dentes.
Minha mãe é a mulher mais gentil do mundo. Devia ter se casado com um milionário, não com um imbecil como o Gabe.
Por ela, tentei parecer otimista em relação aos meus últimos dias na Academia Yancy. Disse-lhe que não estava muito chateado com a expulsão. Dessa vez, conseguir durar quase o ano inteiro. Eu havia feito novos amigos. Tinha me saído muito bem em latim. E, honestamente, as brigas não tinham sido tão ruins como dissera o diretor. Eu tinha gostado da Academia Yancy. De verdade. Enfeitei tanto os acontecimentos do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com a voz embargada só de pensar em Grover e no sr. Brunner. Até Nancy Bobofit de repente não pareceu assim tão má.
Até aquela excursão ao museu...
— O quê? — perguntou minha mãe. Seus olhos puxaram pela minha consciência, tentando arrancar os segredos. — Alguma coisa assustou você?
— Não, mamãe.
Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a sra. Dodds e as três velhas com o fio de lã, mas achei que aquilo pareceria bobagem.
Ela apertou os lábios. Sabia que eu estava escondendo alguma coisa, mas não quis me pressionar.
— Tenho uma surpresa para você — disse ela. — Nós vamos á praia.
Meus olhos se arregalaram.
— Montauk?
— Três noites... no mesmo chalé.
— Quando?
Ela sorriu.
— Assim que eu me trocar.
Mal pude acreditar. Minha mãe e eu não tínhamos ido a Montauk nos últimos dois verões porque Gabe dissera que não havia dinheiro suficiente.
Gabe apareceu no vão da porta e rosnou.
— Pasta de feijão, Sally. Você não ouviu?
Tive vontade de dar-lhe um soco, mas meus olhos encontraram os da minha mãe e entendi que ela estava me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe só um pouquinho. Só até ela estar pronta para ir para Montauk. Então sairíamos dali.
— Eu já estava a caminho, meu bem — disse ela a Gabe. — Estávamos só conversando sobre a viagem.
Os olhos de Gabe se apertaram.
— A viagem? Você quer dizer que estava falando disso a sério?
— Eu sabia — murmurei. — Ele não vai nos deixar ir.
— É claro que vai — disse minha mãe calmamente. — Seu padrasto só está preocupado com o dinheiro. É tudo. Além disso — acrescentou —, Gabriel não terá de se contentar com pasta de feijão. Vou fazer para ele uma pasta de sete camadas suficiente para todo o fim de semana. Guacamole. Creme azedo. Serviço completo.
Gabe amaciou um pouco.
— Então esse dinheiro para a viagem... vai sair do seu orçamento para roupas, certo?
— Sim, meu bem — disse minha mãe.
— E você não vai com meu carro para lugar nenhum, só vai usar na ida e na volta.
— Seremos muito cuidadosos.
Gabe coçou seu queixo duplo.
— Talvez se você andar logo com essa pasta de sete camadas... E talvez se o garoto pedir desculpas por interromper meu jogo de pôquer...
Talvez se eu chutar você no seu ponto sensível, pensei. E fizer você soprar com voz de soprano por uma semana.
Mas os olhos da minha mãe me advertiram para não deixá-lo zangado.
Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que ele pensava?
— Desculpe — murmurei. — Sinto muito ter interrompido seu importantíssimo jogo de pôquer. Por favor, volte a ele agora mesmo.
Os olhos de Gabe se estreitaram. O cérebro minúsculo provavelmente estava tentando detectar o sarcasmo na minha frase.
— Está bem, seja lá o que for — convenceu-se.
E voltou para o jogo.
— Obrigada, Percy — disse minha mãe. — Depois que chegarmos a Montauk, vamos conversar mais sobre... o que quer que você tenha se esquecido de me contar, certo?
Por um momento, pensei ter visto ansiedade nos olhos dela — o mesmo medo que vira em Grover na viagem de ônibus —, como se minha mãe também estivesse sentindo um estranho calafrio no ar.
Mas então o sorriso dela voltou e concluí que devia estar enganado. Ela despenteou meu cabelo e foi fazer a pasta de sete camadas para Gabe.
Uma hora depois estávamos prontos para partir.
Gabe interrompeu seu jogo de pôquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malas da minha mãe para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida dela — e mais importante, sem seu Camaro 78 — durante todo o fim de semana.
— Nem um arranhão nesse carro, geninho — advertiu-me quando eu estava carregando a última mala. — Nem um arranhãozinho.
CONTINUA
domingo, 20 de outubro de 2013
08 - O Ladrão de Raios
“Todos deveriam ter um lugar favorito no universo, um lugar que dê a sensação de que você vai escapar do que for, de seja lá o que você está sentindo. Aquele lugar onde as pessoas de quem você gosta vão te procurar quando você provavelmente sumiu por não aguentar a barra, como acontece no cinema, quando os personagens estão perdidos, prostrados ou loucos de amor.” — Gabito Nunes.
Hora da confissão: descartei Grover assim que chegamos ao terminal rodoviário.
Eu sei, eu sei. Foi rude. Mas Grover estava me deixando fora de mim, me olhando como se eu fosse um homem morto, murmurando: "Por que sempre tem de ser no sétimo ano?"
Sempre que Grover ficava nervoso, sua bexiga entrava em ação, portanto não fiquei surpreso quando, assim que descemos do ônibus, ele me fez prometer que o esperaria e foi direto para o banheiro. Em vez de esperar, peguei minha mala, saí discretamente e tomei o primeiro táxi saindo do Centro.
— Cento e quatro Leste com Primeira Avenida — disse ao motorista.
Uma palavra sobre a minha mãe, antes que você a conheça.
Seu nome é Sally Jackson e ela é a melhor pessoa do mundo, o que apenas prova minha teoria de que as melhores pessoas são as mais azaradas. Os pais morreram em um desastre de avião quando ela estava com cinco anos, e então foi criada por um tio que não lhe dava muita bola. Queria ser escritora, assim passou o curso de ensino médio trabalhando e economizando dinheiro para pagar uma faculdade com um bom programa de oficinas literárias. Então o tio teve câncer e ela precisou abandonar a escola no último ano para cuidar dele. Depois que ele morreu, ela ficou sem dinheiro nenhum, sem família e sem diploma.
A única coisa boa que lhe aconteceu foi conhecer meu pai.
Não tenho nenhuma lembrança dele, apenas essa espécie de sensação calorosa, talvez o mais leve resquício de seu sorriso. Minha mãe não gosta de falar sobre ele porque isso a deixa triste. Ela não tem fotografias.
Veja bem, eles não eram casados. Ela me contou que ele era rico e influente, e o relacionamento deles era um segredo. Então um dia ele zarpou pelo Atlântico em alguma jornada importante, e nunca mais voltou.
Perdido no mar, minha mãe me contou. Não morto. Perdido no mar.
Ela vivia de trabalhos esporádicos, estudava á noite para tirar o diploma de ensino médio e me criou sozinha. Nunca se queixava ou ficava zangada. Nem uma só vez. Mas eu sabia que não era uma criança fácil.
Acabou se casando com Gabe Ugliano, que foi simpático nos primeiros trinta segundos em que o conhecemos e depois mostrou quem realmente era, um imbecil de marca maior. Quando eu era pequeno, apelidei-o de Gabe Cheiroso. Sinto muito, mas é a verdade. O cara fedia a pizza de alho embolorada enrolada num calção de ginástica.
Em nosso fogo cruzado, tornávamos a vida da minha mãe bem difícil. O modo como Gabe Cheiroso a tratava, o jeito como ele e eu nos relacionávamos... bem, um bom exemplo é minha chegada em casa.
Entrei em nosso pequeno apartamento, esperando que minha mãe já tivesse voltado do trabalho. Em vez disso, Gabe Cheiroso estava na sala de estar, jogando pôquer com seus cupinchas. Na televisão, o canal de esportes estava no volume máximo. Havia batatinhas e latas de cerveja espalhadas pelo tapete.
Mal erguendo os olhos, ele disse com o cigarro na boca:
— Então você está em casa.
— Onde está a minha mãe?
— Trabalhando — disse ele. — Você tem alguma grana?
E foi isso. Nada de Bem-vindo ao lar. Bom ver você. O que fez nos últimos seis meses?
Gabe tinha engordado. Parecia uma morsa sem tromba com roupas de brechó. Tinha uns três fios de cabelo na cabeça, todos penteados por cima da careca, como se isso o deixasse bonito, ou coisa assim.
Era gerente do Hipermercado de Eletrônica, no Queens, mas passava a maior parte do tempo em casa. Não sei porque ainda não tinha sido demitido. Ele só ficava recebendo o pagamento, gastando o dinheiro em charutos que me dão náuseas e em cerveja, é claro. Sempre cerveja. Toda vez que eu estava em casa ele esperava que eu lhe fornecesse fundos para jogar. Chamava isso de nosso "segredo de homem". Isto é, se eu contasse para a minha mãe, ele me quebrava a cara.
— Não tenho grana nenhuma — falei.
Ele ergueu uma sobrancelha oleosa.
Gabe era capaz de farejar dinheiro como um cão de caça, o que era surpreendente, já que seu próprio cheiro deveria encobrir qualquer outro.
— Você pegou um táxi no terminal de ônibus — disse ele. — Provavelmente pagou com uma nota de vinte. Recebeu seis ou sete dólares de troco. Alguém que espera viver embaixo deste teto devia ser capaz de se sustentar. Estou certo, Eddie?
Eddie, o síndico do prédio, olhou para mim com uma pontinha de solidariedade.
— Vamos, Gabe — disse ele. — O garoto acabou de chegar.
— Estou certo? — repetiu Gabe.
Eddie fez uma careta para sua tigela de pretzels. Os outros dois caras soltaram juntos seus gases.
— Tudo bem — disse eu. Tirei um maço de dólares do bolso e joguei o dinheiro em cima da mesa. — Tomara que você perca.
— Seu boletim chegou, geninho! — gritou ele ás minhas costas. — Eu não ficaria tão metido!
Bati a porta do meu quarto, que na verdade não era meu. Durante os meses de aula era a "sala de estudos" de Gabe. Ele não "estudava" coisa nenhuma lá, exceto revistas de automóveis, mas adorava socar as minhas coisas no armário, largar as botas enlameadas no peitoril da janela e fazer o possível para deixar o lugar com o cheiro de sua colônia detestável, charutos e cerveja choca.
Larguei a mala em cima da cama. Lar doce lar.
O cheiro de Gabe era quase pior que os pesadelos com a sra. Dodds ou o som da tesoura daquela velha enrugada cortando o fio de lã.
Mas assim que pensei naquilo minhas pernas bambearam. Lembrei-me da expressão de pânico de Grover — de como ele me fizera prometer que não iria para casa sem ele. Um calafrio repentino me percorreu. Era como se alguém — alguma coisa — estivesse procurando por mim naquele momento, talvez subindo pesadamente a escada, com garras compridas e horrendas crescendo.
Então ouvi a voz da minha mãe.
— Percy?
Ela abriu a porta do quarto, e meus medos se foram.
CONTINUA
sábado, 19 de outubro de 2013
07 - O Ladrão de Raios
“Os homens de profunda tristeza se denunciam quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme - eles sabem muito bem como ela escapa!” — Friedrich Nietzsche, Além do Bem e do Mal.
— Grover — disse eu —, do que exatamente você está me protegendo?
Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo dos nossos pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o Greyhound com dificuldade até o acostamento.
Depois de alguns minutos fazendo alguns sons metálicos no compartimento do motor, o motorista anunciou que teríamos de descer. Grover e eu saímos em fila com todos os outros.
Estávamos em um trecho de estrada rural — um lugar que a gente nem notaria se não tivesse enguiçado lá. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos e lixo jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente.
As coisas á venda pareciam realmente boas: caixas transbordando de cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com pés em forma de patas, cheia de gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço á sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.
Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de suéteres, mas, obviamente, eram meias. A senhora da direita tricotava uma delas. A da esquerda tricotava outra. A do meio segurava uma enorme cesta de lã azul brilhante.
As três mulheres pareciam muito velhas, com o rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com lenço branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.
A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim.
Encarei Grover para comentar isso e vi que seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia.
— Grover? — disse eu. — Ei, cara...
— Diga que elas não estão olhando para você. Estão, não é?
— Estão. Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?
— Não tem graça, Percy. Não tem graça nenhuma.
A velha do meio pegou uma tesoura imensa — dourada e prateada, de lâminas longas, como uma tosquiadeira. Ouvi Grover tomar fôlego.
— Vamos entrar no ônibus — ele me disse. — Venha.
— O quê? — disse eu. — Lá dentro está fazendo quinhentos graus.
— Venha! — Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.
Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim. A do meio cortou o fio de lã, e posso jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas de trânsito. As duas amigas dela enrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria aquilo — o Pé Grande ou o Godzilla
Na traseira do ônibus, o motorista arrancou um grande pedaço de metal fumegante do compartimento do motor. O ônibus estremeceu e o motor voltou á vida, roncando.
Os passageiros aplaudiram.
— Tudo em ordem! — gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com chapéu. — Todo o mundo para dentro!
Quando já estávamos a caminho, comecei a me sentir febril, como se tivesse pego uma gripe.
Grover não pareceu muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes.
— Grover?
— Sim?
— O que me diz?
Ele enxugou a testa com a manga da camisa.
— Percy, o que você viu lá atrás, na banca de frutas?
— Você quer dizer, aquelas velhas? O que há com elas, cara? Elas não são como... a sra. Dodds, são?
A expressão dele era difícil interpretar, mas tive a sensação de que as velhas da banca de frutas eram algo muito, muito pior do que a sra. Dodds. Grover disse:
— Só me diga o que você viu.
— A do meio pegou a tesoura e cortou o fio.
Ele fechou os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal da cruz, mas não era isso. Era outra coisa, algo um tanto... mais antigo.
Ele disse:
— Você a viu cortar o fio.
— Sim. E daí? — Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.
— Isso não está acontecendo — murmurou Grover. Ele começou a morder o dedão. — Não quero que seja como na última vez.
— Que última vez?
— Sempre o sétimo ano. Eles nunca passam do sétimo.
— Grover — disse eu, porque ele estava realmente começando a me assustar —, do que você está falando?
— Deixe que eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.
Aquele me parecia um pedido estranho, mas prometi.
— É uma superstição ou coisa assim? — perguntei.
Nenhuma resposta.
— Grover... aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?
Ele olhou para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo e flores que eu gostaria mais de ter em meu caixão.
CONTINUA
06 - O Ladrão de Raios
“Então você percebe que se apegou demais, e que já não é possível viver sem aquela pessoa.” — Reter-te.
— Está com uma cara horrível. — Ele franziu a testa. — Tudo bem?
— Só estou cansado.
Virei-me para que ele não pudesse perceber minha expressão e comecei a me preparar para dormir.
Não entendi o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo.
Mas uma coisa estava clara: Grover e o sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas. Achavam que eu corria algum tipo de perigo.
Na tarde seguinte, quando estava saindo da prova de latim de três horas, atordoado com todos os nomes gregos e romanos que tinha escrito errado, o sr. Brunner me chamou de volta.
Por um momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na noite anterior, mas não parecia ser esse o problema.
— Percy — disse ele. — Não fique desanimado por deixar Yancy. É... é para o seu bem.
Seu tom era gentil, mas ainda assim as palavras me deixaram sem graça. Embora ele estivesse falando baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou um sorriso falso e, sarcasticamente, fez pequenos movimentos de beijo com os lábios.
Eu murmurei:
— Está bem, senhor.
— Quer dizer... — O sr. Brunner andou com a cadeira para trás e para a frente, como se não tivesse certeza do que falar. — Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão de tempo.
Meus olhos ardiam.
Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz. Depois de falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava destinado a ser expulso.
— Certo — disse eu, tremendo.
— Não, não — disse o sr. Brunner. — Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer... é que você não é normal, Percy. Não é nada ser...
— Obrigado — soltei. — Muito obrigado, senhor, por me lembrar.
— Percy...
Mas eu já tinha ido.
No último dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala.
Os outros garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as férias. Um deles ia fazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro de um mês pelo Caribe. Eram delinquentes juvenis como eu, mas delinquentes juvenis ricos. Os papais eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era um joão-ninguém, de uma família de joões-ninguém.
Eles me perguntaram o que ia fazer no verão, e eu disse que voltaria para a cidade.
O que não lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de verão passeando com cachorros ou vendendo assinaturas de revistas, e passar o tempo livro pensando em onde iria estudar no outono.
— Ah — disse um dos garotos. — Legal.
Eles voltaram a conversa como se eu não existisse.
A única pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as coisas aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhattan no mesmo ônibus Greyhound que eu, então lá estávamos nós, juntos outra vez, indo para a cidade.
Durante toda a viagem de ônibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os outros passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando saíamos de Yancy, como se esperasse que algo ruim fosse acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo de que o provocassem. Mas não havia ninguém para fazer isso no Greyhound.
Finalmente, não pude mais aguentar.
— Procurando Benevolentes?
Grover quase pulou do assento.
— O que... o que você quer dizer?
Confessei ter ouvido a conversa dele com o sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.
O olho de Grover estremeceu.
— Quanto você ouviu?
— Ah... não muito. O que é prazo final do solstício de verão?
Ele se esquivou.
— Olhe, Percy... Eu só estava preocupado com você, entende? Quer dizer, tendo alucinações com professoras de matemática demoníacas...
— Grover...
— E eu estava dizendo ao sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou coisa assim, porque não havia uma pessoa chamada sra. Dodds e...
— Grover, você mente muito mal mesmo.
As orelhas dele ficaram cor-de-rosa.
Do bolso da camisa, ele pescou um cartão de visitas encardido.
— Pegue isto, certo? Para o caso de você precisar de mim neste verão.
O cartão tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos disléxicos, mas por fim consegui identificar alguma coisa como:
Grover Underwood
Guardião
Colina Meio-Sangue
Long Island, Nova York
(800) 009-0009
— O que é Colina Meio...
— Não fale alto! — ganiu. — É meu, ah... endereço de verão.
Meu coração desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a família dele poderia ser tão rica quanto as dos outros em Yancy.
— Certo — falei, mal-humorado. — Tá, se eu quiser fazer uma visita á sua mansão.
Ele assentiu.
— Ou... ou se você precisar de mim.
— Porque eu iria precisar de você?
Saiu mais rude do que eu pretendia.
Grover ficou com a cara toda vermelha.
— Olhe, Percy, a verdade é que eu... eu tenho, de certo modo, que proteger você.
Olhei fixamente para ele.
Durante o ano inteiro me meti em brigas para manter os valentões longe dele. Perdi o sono temendo que, sem mim, ele fosse apanhar no ano que vem. E ali estava Grover agindo como se fosse ele a me defender.
CONTINUA
05 - O Ladrão de Raios
“Eu consigo perceber, o momento que você sabe não ser uma historia triste, você está vivo. Você se levanta e vê as luzes dos prédios e tudo que te faz pensar. Ouve aquela musica na estrada com a pessoa que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.” — As Vantagens de ser Invisível.
Eu não tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, á noite, visões da sra. Dodds com garras e asas de couro me faziam acordar suando frio.
O tempo maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de raios arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias depois, o maior tornado jamais visto no vale do Hudson tocou o chão a apenas trinta quilômetros da Academia Yancy. Um dos eventos correntes que aprendemos na aula de estudos sociais era o número inusitado de pequenos aviões que caíram em súbitos vendavais no Atlântico naquele ano.
Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram de D para F. Entre em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto para fora da sala e tinha de ficar no corredor em quase todas as aulas.
Finalmente, quando o nosso professor de inglês, o sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima vez porque eu tinha tanta preguiça de estudar para as provas de ortografia, eu explodi. Chamei-o de velho dipsomaníaco. Não sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem.
O diretor mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não seria convidado a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte.
Ótimo, disse a mim mesmo. Simplesmente ótimo.
Eu estava com saudades de casa.
Queria ficar com minha mãe no nosso pequeno apartamento no Upper East Side, mesmo que tivesse de frequentar uma escola pública e aturar meu padrasto detestável e seus jogos de pôquer estúpidos.
E no entanto... havia coisas em Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha janela para os bosques, o rio Hudson a distância, o cheiro dos pinheiros. Sentiria falta de Grover, que tinha sido um bom amigo, mesmo com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao próximo ano sem mim.
Também sentiria falta da aula de latim — os dias malucos de torneio do sr. Brunner e sua confiança em que eu poderia me sair bem.
Quando a semana de exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual eu estudava. Não tinha me esquecido do que o sr. Brunner falara, sobre essa matéria ser questão de vida ou morte para mim. Não sabia muito bem por quê, mas começara a acreditar nele.
Na noite anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega do outro lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora da página, dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate. Não havia jeito de eu me lembrar da diferença entre Quíron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar aqueles verbos latinos? Nem pensar.
Fiquei indo de um lado para outro no quarto, com a sensação de que havia formigas andando por dentro da minha camisa.
Lembrei a expressão séria do sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Respirei fundo. Peguei o livro de mitologia.
Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o sr. Brunner, quem sabe ele me daria algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo grande F que ia tirar na prova. Não queria sair da Academia Yancy deixando-o pensar que eu não tinha me esforçado.
Desci a escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas a porta do sr. Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso do corredor.
Eu estava a três passos da maçaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala. O sr. Brunner tinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dúvida, era a de Grover disse: "... preocupado com Percy, senhor."
Eu gelei.
Normalmente não sou bisbilhoteiro, mas desafio alguém a não tentar ouvir quando seu melhor amigo está falando sobre você com um adulto.
Cheguei um pouquinho mais perto.
— ... sozinho nesse verão — Grover estava dizendo. — Quer dizer, uma Benevolente na escola! Agora que sabemos com certeza, e eles também sabem...
— Só vamos piorar as coisas se o apressarmos — disse o sr. Brunner. — Precisamos que o menino amadureça mais.
— Mas ele pode não ter tempo. O prazo final do solstício de verão...
— Terá de ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorância enquanto ainda pode.
— Senhor, ele a viu...
— Imaginação dele — insistiu o sr. Brunner. — A Névoa sobre os alunos e a equipe será suficiente para convencê-lo disso.
— Senhor, eu... eu não posso fracassar nas minhas tarefas de novo. — A voz de Grover estava embargada de emoção. — Sabe o que isso significaria.
— Você não fracassou, Grover — disse o sr. Brunner gentilmente. — Eu deveria tê-la visto como ela era. Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo até o próximo outono...
O livro de mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.
O sr. Brunner silenciou.
Com o coração disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor.
Uma sombra deslizou pelo vidro iluminado da porta da sala de Brunner, a sombra de algo muito mais alto do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa suspeitamente parecido com o arco de um arqueiro.
Abri a porta mais próxima e me esgueirei para dentro.
Alguns segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop, como blocos de madeira abafados, depois um som como o de um animal farejando bem na frente da minha porta. Um grande vulto escuro parou diante do vidro e depois seguiu adiante.
Uma gota de suor escorreu por meu pescoço.
Em algum lugar no corredor, o sr. Brunner falou.
— Nada — murmurou ele. — Meus nervos não andam muito bons desde o solstício de inverno.
— Nem os meus — disse Grover. — Mas eu podia ter jurado...
— Volte para o dormitório — disse-lhe o sr. Brunner. — Você tem um longo dia de provas amanhã.
— Nem me lembre.
As luzes se apagaram na sala do sr. Brunner.
Aguardei no escuro pelo que pareceu uma eternidade.
Por fim, me esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitório.
Grover estava deitado na cama, estudando as anotações para a prova de latim como se tivesse estado lá a noite inteira.
— Ei! — disse ele, com olhar de sono. — Vai estar preparado para a prova?
Não respondi.
CONTINUA
04 - O Ladrão de Raios
“E agora você está longe e só te encontro nos meus sonhos. Tudo perdeu a graça e o meu único desejo é dormir. Não pra esquecer ou fugir da realidade, mas pra te encontrar. Dormir pra te encontrar…” — Reter-te.
— Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada — a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
Ela rosnou:
— Morra, meu bem!
E voou para cima de mim.
Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada além do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
Eu estava sozinho.
Havia uma caneta esferográfica na minha mão.
O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim.
Será que eu havia imaginado tudo aquilo?
Voltei para o lado de fora.
Tinha começado a chover.
Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando em viu, disse:
— Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
— Quem? — respondi.
— Nossa professora. Dãã!
Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando.
Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
— Quem? — respondeu ele.
Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
— Não tem graça, cara — disse a ele. — Isso é sério.
Um trovão estourou no alto.
Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido.
Fui até ele.
Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
— Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
— Senhor — disse eu —, onde está a sra. Doods?
Ele olhou para mim com a expressão vazia.
— Quem?
— A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação á álgebra.
Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
— Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?
Eu estava acostumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas passavam depressa. Aquela alucinação vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia estar me pregando algum tipo de peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de que a sra. Kerr — uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão — era nossa professora de iniciação á álgebra desde o Natal.
De vez em quando eu soltava uma referência á sra. Dodds para cima de alguém, só para ver se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.
Acabei quase acreditando neles: a sra. Dodds nunca tinha existido.
Quase.
Mas Grover não conseguia me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava, depois alegava que ela não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.
Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.
CONTINUA
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
03 - O Ladrão de Raios
“Deitar na cama, abraçar o travesseiro, e pensar em você.. Virou rotina. Imaginar seu sorriso, doce e leve. Isso me trás sorrisos bobos, suspiros profundos, lembranças ótimas. E de tanto imaginar momentos ao seu lado, caio no sono com sua imagem em minha mente.” — Meu Coração.
Observei os táxis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos sentados. Eu não a via desde o Natal. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente de me ver, mas também ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria de que preciso me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o olhar triste que ela me lançaria.
O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as amigas feiosas — imagino que tivesse se cansado de roubar aos turistas — e deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
— Oops. — Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos líquido.
Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão de vezes: "Conte até dez, controle seu gênio." Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos.
Não me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no chafariz, berrando:
— Percy me empurrou!
A sra. Dodds se materializou ao nosso lado.
Algumas das crianças estavam sussurrando:
— Você viu...
— ... a água...
— ... parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de presentes do museu etc e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo qual ela esperara o semestre inteiro:
— Agora, meu bem...
— Eu sei — resmunguei. — Um mês apagando livros de exercícios.
Não foi a coisa certa para dizer.
— Venha comigo — disse a sra. Dodds.
— Espere! — guinchou Grover. — Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da sra. Dodds.
Ela lançou um olhar tão furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
— Acho que não, sr. Underwood — disse ela.
— Mas...
— Você... vai... ficar... aqui.
Grover me olhou desesperadamente.
— Tudo bem, cara — disse a ele. — Obrigado por tentar.
— Meu bem — latiu a sra. Dodds para mim. — Agora.
Nancy Bobofit deu um sorriso falso.
Lancei-lhe meu olhar de "vou acabar com a sua raça". Então me virei para enfrentar a sra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava postada á entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.
Como ela chegou lá tão depressa?
Tenho milhares de momentos desse tipo — meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta certeza.
Fui atrás da sra. Dodds.
No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo os olhos entre mim e o sr. Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor estava absorto em seu romance.
Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes.
Mas aparentemente não era esse o plano.
Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estávamos de volta á seção greco-romana.
A não ser por nós, a galeria estava vazia.
A sra. Dodds estava postada de braços cruzados na frente de um grande friso de mármore com os deuses gregos. Ela fazia um ruído estranho com a garganta, como um rosnado.
Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora, especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulverizá-lo...
— Você está nos criando problemas, meu bem — disse ela.
Fiz o que era seguro. Disse:
— Sim, senhora.
Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro.
— Você achou mesmo que ia se safar desta?
A expressão em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa.
Ela é uma professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar.
Eu disse:
— Eu... eu vou me esforçar mais, senhora.
Um trovão sacudiu o edifício.
— Nós não somos bobos, Percy Jackson — disse a sra. Dodds. — Seria apenas uma questão de tempo até que o descobríssemos.
Eu não sabia do que ela estava falando.
Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre Tom Sawyer na internet sem nem ter lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a ler o livro.
— E então? — exigiu.
— Senhora, eu não...
— O seu tempo se esgotou — sibilou ela.
Então algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas — e estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.
O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas até o vão da porta da galeria, segurando uma caneta.
CONTINUA
02 - O Ladrão de Raios
Ela me apontava o dedo torto e dizia: "Agora, meu bem", com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
— Você está certíssimo.
O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado da estela, e eu me virei e disse:
— Quer calar a boca?
Saiu mais alto do que eu pretendia.
O grupo inteiro deu risada. O sr. Brunner interrompeu sua história.
— Sr. Jackson — disse ele —, fez algum comentário?
Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
— Não, senhor.
O sr. Brunner para uma das figuras na estela.
— Talvez possa nos dizer o que essa figura representa.
Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
— É Cronos comendo os filhos, certo?
— Sim — disse o Sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. — E ele fez isso porque...
— Bem... — eu quebrei a cabeça para me lembrar. — Cronos era o deus-rei e...
— Rei? — perguntou o sr. Brunner.
— Titã — eu me corrigi. — E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs...
— Eca! — disse uma das meninas atrás de mim.
— ... e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs — continuei —, e os deuses venceram.
Algumas risadinhas do grupo.
Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
— Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar na nossa entrevista de emprego: "Por favor, explique porque Cronos comeu seus filhos."
— E porque, sr. Jackson — disse o sr. Brunner —, parafraseando a excelente pergunta da srta. Bobofit, isso importa na vida real?
— Se ferrou — murmurou Grover.
— Cale a boca — chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo de errado. Tinha ouvidos de radar.
Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
— Não sei, senhor.
— Entendo. — O sr. Brunner pareceu desapontado. — Bem, meio ponto, sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortaram-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
Grover estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
— Sr. Jackson;.
Eu sabia o que vinha a seguir.
Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
— Senhor?
O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora — olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
— Você precisa aprender a responder á minha pergunta — disse ele.
— Sobre os titãs?
— Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
— Ah.
— O que você aprende comigo — disse ele — é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava "Olé!" e nos desafiava, ponta de espada contra giz, a correr para o quadro negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de c-. Não — ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.
Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
Ele me disse para sair e comer meu lanche.
A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêncios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando.
Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquistões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
— Detenção? — perguntou Grover.
— Não — disse eu. — Não do Brunner. Eu só gostaria que ele ás vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum tipo de comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
— Posso comer sua maçã?
Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.
CONTINUA
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