quarta-feira, 23 de outubro de 2013

09 - O Ladrão de Raios

“Peguei um sulfite em branco e comecei a escrever tudo o que eu sentia. Mas um sulfite era pouco, peguei doze logo de uma vez e fui escrevendo sem me questionar sobre coerência, pontuação ou se estava ficando bom, eu só precisava tirar todo esse peso de mim. Eu escrevi sobre minha infância.. Sobre todos os momentos felizes e todos aqueles em que eu quis sumir, sobre os meus pais, sobre as pessoas que foram embora me deixando com um buraco no peito e com perguntas que até hoje eu não sei responder. Escrevi sobre toda aquela parte de mim que eu sempre insisto em querer esquecer e de tanto pensar em esquecer, eu lembro. Eu chorei por horas lendo aquelas coisas que acabaram virando uma mistura de sulfite com caneta bic azul e lagrimas, assim.. Tudo junto. Eu li, reli e só conseguia ficar mais triste, mais confusa do que eu já sou. Fiquei revendo a carta por horas até pegar no sono com o barulho da chuva lá fora. E quando eu abri os olhos de novo, o mundo continuava lá, pronto pra ser explorado, o céu estava azul de novo, eu já não me sentia sozinha. Momentos ruins são como labirintos e você não pode desistir de procurar a saída pra todo problema. Se as pessoas parecem de guardar as pequenas coisas que as machucam, isso não viraria algo tão grande.” — Não há conselheiro melhor que o seu travesseiro.

  A simples entrada de minha mãe no quarto já consegue me fazer sentir bem. Seus brilham e mudam de cor com a luz. O sorriso é quente como uma manta. Ela tem alguns poucos fios grisalhos misturados com os longos cabelos castanhos, mas nunca penso nela como uma pessoa velha. Quando me olha, é como se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma das ruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou dizer uma palavra indelicada para ninguém, nem mesmo para mim ou Gabe.
 — Ah, Percy. — Ela me abraçou apertado. — Eu não acredito. Você cresceu desde o Natal!
 O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce América, tinha o cheiro das melhores coisas do mundo: chocolate, alcaçuz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Grande Estação Central. Tinha levado para mim um belo saco de "amostras grátis", como sempre fazia quando eu ia para casa.
 Sentamos juntos na beirada da cama. Enquanto eu atacava os doces de mirtilo, ela passava a mão no meu cabelo e queria saber tudo o que eu não havia escrito nas cartas. Nada mencionou sobre o fato de eu ter sido expulso. Não parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seu menininho estava bem?
 Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que desse um tempo e tal, mas, secretamente, estava feliz demais em vê-la.
 Do outro cômodo, Gabe berrou:
 — Ei, Sally! Que tal um pouco de pasta de feijão, hein?
 Eu rangi os dentes.
 Minha mãe é a mulher mais gentil do mundo. Devia ter se casado com um milionário, não com um imbecil como o Gabe.
 Por ela, tentei parecer otimista em relação aos meus últimos dias na Academia Yancy. Disse-lhe que não estava muito chateado com a expulsão. Dessa vez, conseguir durar quase o ano inteiro. Eu havia feito novos amigos. Tinha me saído muito bem em latim. E, honestamente, as brigas não tinham sido tão ruins como dissera o diretor. Eu tinha gostado da Academia Yancy. De verdade. Enfeitei tanto os acontecimentos do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com a voz embargada só de pensar em Grover e no sr. Brunner. Até Nancy Bobofit de repente não pareceu assim tão má.
 Até aquela excursão ao museu...
 — O quê? — perguntou minha mãe. Seus olhos puxaram pela minha consciência, tentando arrancar os segredos. — Alguma coisa assustou você?
 — Não, mamãe.
 Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a sra. Dodds e as três velhas com o fio de lã, mas achei que aquilo pareceria bobagem.
 Ela apertou os lábios. Sabia que eu estava escondendo alguma coisa, mas não quis me pressionar.
 — Tenho uma surpresa para você — disse ela. — Nós vamos á praia.
 Meus olhos se arregalaram.
 — Montauk?
 — Três noites... no mesmo chalé.
 — Quando?
 Ela sorriu.
 — Assim que eu me trocar.
 Mal pude acreditar. Minha mãe e eu não tínhamos ido a Montauk nos últimos dois verões porque Gabe dissera que não havia dinheiro suficiente.
 Gabe apareceu no vão da porta e rosnou.
 — Pasta de feijão, Sally. Você não ouviu?
 Tive vontade de dar-lhe um soco, mas meus olhos encontraram os da minha mãe e entendi que ela estava me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe só um pouquinho. Só até ela estar pronta para ir para Montauk. Então sairíamos dali.
 — Eu já estava a caminho, meu bem — disse ela a Gabe. — Estávamos só conversando sobre a viagem.
 Os olhos de Gabe se apertaram.
 — A viagem? Você quer dizer que estava falando disso a sério?
 — Eu sabia — murmurei. — Ele não vai nos deixar ir.
 — É claro que vai — disse minha mãe calmamente. — Seu padrasto só está preocupado com o dinheiro. É tudo. Além disso — acrescentou —, Gabriel não terá de se contentar com pasta de feijão. Vou fazer para ele uma pasta de sete camadas suficiente para todo o fim de semana. Guacamole. Creme azedo. Serviço completo.
 Gabe amaciou um pouco.
 — Então esse dinheiro para a viagem... vai sair do seu orçamento para roupas, certo?
 — Sim, meu bem — disse minha mãe.
 — E você não vai com meu carro para lugar nenhum, só vai usar na ida e na volta.
 — Seremos muito cuidadosos.
 Gabe coçou seu queixo duplo.
 — Talvez se você andar logo com essa pasta de sete camadas... E talvez se o garoto pedir desculpas por interromper meu jogo de pôquer...
 Talvez se eu chutar você no seu ponto sensível, pensei. E fizer você soprar com voz de soprano por uma semana.
 Mas os olhos da minha mãe me advertiram para não deixá-lo zangado.
 Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que ele pensava?
 — Desculpe — murmurei. — Sinto muito ter interrompido seu importantíssimo jogo de pôquer. Por favor, volte a ele agora mesmo.
 Os olhos de Gabe se estreitaram. O cérebro minúsculo provavelmente estava tentando detectar o sarcasmo na minha frase.
 — Está bem, seja lá o que for — convenceu-se.
 E voltou para o jogo.
 — Obrigada, Percy — disse minha mãe. — Depois que chegarmos a Montauk, vamos conversar mais sobre... o que quer que você tenha se esquecido de me contar, certo?
 Por um momento, pensei ter visto ansiedade nos olhos dela — o mesmo medo que vira em Grover na viagem de ônibus —, como se minha mãe também estivesse sentindo um estranho calafrio no ar.
 Mas então o sorriso dela voltou e concluí que devia estar enganado. Ela despenteou meu cabelo e foi fazer a pasta de sete camadas para Gabe.

 Uma hora depois estávamos prontos para partir.
 Gabe interrompeu seu jogo de pôquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malas da minha mãe para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida dela — e mais importante, sem seu Camaro 78 — durante todo o fim de semana.
 — Nem um arranhão nesse carro, geninho — advertiu-me quando eu estava carregando a última mala. — Nem um arranhãozinho.

CONTINUA

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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

09 - O Ladrão de Raios

“Peguei um sulfite em branco e comecei a escrever tudo o que eu sentia. Mas um sulfite era pouco, peguei doze logo de uma vez e fui escrevendo sem me questionar sobre coerência, pontuação ou se estava ficando bom, eu só precisava tirar todo esse peso de mim. Eu escrevi sobre minha infância.. Sobre todos os momentos felizes e todos aqueles em que eu quis sumir, sobre os meus pais, sobre as pessoas que foram embora me deixando com um buraco no peito e com perguntas que até hoje eu não sei responder. Escrevi sobre toda aquela parte de mim que eu sempre insisto em querer esquecer e de tanto pensar em esquecer, eu lembro. Eu chorei por horas lendo aquelas coisas que acabaram virando uma mistura de sulfite com caneta bic azul e lagrimas, assim.. Tudo junto. Eu li, reli e só conseguia ficar mais triste, mais confusa do que eu já sou. Fiquei revendo a carta por horas até pegar no sono com o barulho da chuva lá fora. E quando eu abri os olhos de novo, o mundo continuava lá, pronto pra ser explorado, o céu estava azul de novo, eu já não me sentia sozinha. Momentos ruins são como labirintos e você não pode desistir de procurar a saída pra todo problema. Se as pessoas parecem de guardar as pequenas coisas que as machucam, isso não viraria algo tão grande.” — Não há conselheiro melhor que o seu travesseiro.

  A simples entrada de minha mãe no quarto já consegue me fazer sentir bem. Seus brilham e mudam de cor com a luz. O sorriso é quente como uma manta. Ela tem alguns poucos fios grisalhos misturados com os longos cabelos castanhos, mas nunca penso nela como uma pessoa velha. Quando me olha, é como se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma das ruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou dizer uma palavra indelicada para ninguém, nem mesmo para mim ou Gabe.
 — Ah, Percy. — Ela me abraçou apertado. — Eu não acredito. Você cresceu desde o Natal!
 O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce América, tinha o cheiro das melhores coisas do mundo: chocolate, alcaçuz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Grande Estação Central. Tinha levado para mim um belo saco de "amostras grátis", como sempre fazia quando eu ia para casa.
 Sentamos juntos na beirada da cama. Enquanto eu atacava os doces de mirtilo, ela passava a mão no meu cabelo e queria saber tudo o que eu não havia escrito nas cartas. Nada mencionou sobre o fato de eu ter sido expulso. Não parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seu menininho estava bem?
 Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que desse um tempo e tal, mas, secretamente, estava feliz demais em vê-la.
 Do outro cômodo, Gabe berrou:
 — Ei, Sally! Que tal um pouco de pasta de feijão, hein?
 Eu rangi os dentes.
 Minha mãe é a mulher mais gentil do mundo. Devia ter se casado com um milionário, não com um imbecil como o Gabe.
 Por ela, tentei parecer otimista em relação aos meus últimos dias na Academia Yancy. Disse-lhe que não estava muito chateado com a expulsão. Dessa vez, conseguir durar quase o ano inteiro. Eu havia feito novos amigos. Tinha me saído muito bem em latim. E, honestamente, as brigas não tinham sido tão ruins como dissera o diretor. Eu tinha gostado da Academia Yancy. De verdade. Enfeitei tanto os acontecimentos do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com a voz embargada só de pensar em Grover e no sr. Brunner. Até Nancy Bobofit de repente não pareceu assim tão má.
 Até aquela excursão ao museu...
 — O quê? — perguntou minha mãe. Seus olhos puxaram pela minha consciência, tentando arrancar os segredos. — Alguma coisa assustou você?
 — Não, mamãe.
 Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a sra. Dodds e as três velhas com o fio de lã, mas achei que aquilo pareceria bobagem.
 Ela apertou os lábios. Sabia que eu estava escondendo alguma coisa, mas não quis me pressionar.
 — Tenho uma surpresa para você — disse ela. — Nós vamos á praia.
 Meus olhos se arregalaram.
 — Montauk?
 — Três noites... no mesmo chalé.
 — Quando?
 Ela sorriu.
 — Assim que eu me trocar.
 Mal pude acreditar. Minha mãe e eu não tínhamos ido a Montauk nos últimos dois verões porque Gabe dissera que não havia dinheiro suficiente.
 Gabe apareceu no vão da porta e rosnou.
 — Pasta de feijão, Sally. Você não ouviu?
 Tive vontade de dar-lhe um soco, mas meus olhos encontraram os da minha mãe e entendi que ela estava me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe só um pouquinho. Só até ela estar pronta para ir para Montauk. Então sairíamos dali.
 — Eu já estava a caminho, meu bem — disse ela a Gabe. — Estávamos só conversando sobre a viagem.
 Os olhos de Gabe se apertaram.
 — A viagem? Você quer dizer que estava falando disso a sério?
 — Eu sabia — murmurei. — Ele não vai nos deixar ir.
 — É claro que vai — disse minha mãe calmamente. — Seu padrasto só está preocupado com o dinheiro. É tudo. Além disso — acrescentou —, Gabriel não terá de se contentar com pasta de feijão. Vou fazer para ele uma pasta de sete camadas suficiente para todo o fim de semana. Guacamole. Creme azedo. Serviço completo.
 Gabe amaciou um pouco.
 — Então esse dinheiro para a viagem... vai sair do seu orçamento para roupas, certo?
 — Sim, meu bem — disse minha mãe.
 — E você não vai com meu carro para lugar nenhum, só vai usar na ida e na volta.
 — Seremos muito cuidadosos.
 Gabe coçou seu queixo duplo.
 — Talvez se você andar logo com essa pasta de sete camadas... E talvez se o garoto pedir desculpas por interromper meu jogo de pôquer...
 Talvez se eu chutar você no seu ponto sensível, pensei. E fizer você soprar com voz de soprano por uma semana.
 Mas os olhos da minha mãe me advertiram para não deixá-lo zangado.
 Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que ele pensava?
 — Desculpe — murmurei. — Sinto muito ter interrompido seu importantíssimo jogo de pôquer. Por favor, volte a ele agora mesmo.
 Os olhos de Gabe se estreitaram. O cérebro minúsculo provavelmente estava tentando detectar o sarcasmo na minha frase.
 — Está bem, seja lá o que for — convenceu-se.
 E voltou para o jogo.
 — Obrigada, Percy — disse minha mãe. — Depois que chegarmos a Montauk, vamos conversar mais sobre... o que quer que você tenha se esquecido de me contar, certo?
 Por um momento, pensei ter visto ansiedade nos olhos dela — o mesmo medo que vira em Grover na viagem de ônibus —, como se minha mãe também estivesse sentindo um estranho calafrio no ar.
 Mas então o sorriso dela voltou e concluí que devia estar enganado. Ela despenteou meu cabelo e foi fazer a pasta de sete camadas para Gabe.

 Uma hora depois estávamos prontos para partir.
 Gabe interrompeu seu jogo de pôquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malas da minha mãe para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida dela — e mais importante, sem seu Camaro 78 — durante todo o fim de semana.
 — Nem um arranhão nesse carro, geninho — advertiu-me quando eu estava carregando a última mala. — Nem um arranhãozinho.

CONTINUA

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