sábado, 19 de outubro de 2013

04 - O Ladrão de Raios

“E agora você está longe e só te encontro nos meus sonhos. Tudo perdeu a graça e o meu único desejo é dormir. Não pra esquecer ou fugir da realidade, mas pra te encontrar. Dormir pra te encontrar…” — Reter-te.

  — Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
 A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
 Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada — a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
 A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
 Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
 Ela rosnou:
 — Morra, meu bem!
 E voou para cima de mim.
 Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
 A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
 A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada além do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
 Eu estava sozinho.
 Havia uma caneta esferográfica na minha mão.
 O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
 Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim.
 Será que eu havia imaginado tudo aquilo?
 Voltei para o lado de fora.
 Tinha começado a chover.
 Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu  formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando em viu, disse:
 — Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
 — Quem? — respondi.
 — Nossa professora. Dãã!
 Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando.
 Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
 Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
 — Quem? — respondeu ele.
 Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
 — Não tem graça, cara — disse a ele. — Isso é sério.
 Um trovão estourou no alto.
 Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido.
 Fui até ele.
 Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
 — Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
 Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
 — Senhor — disse eu —, onde está a sra. Doods?
 Ele olhou para mim com a expressão vazia.
 — Quem?
 — A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação á álgebra.
 Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
 — Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?

 Eu estava acostumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas passavam depressa. Aquela alucinação vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia estar me pregando algum tipo de peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de que a sra. Kerr — uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão — era nossa professora de iniciação á álgebra desde o Natal.
 De vez em quando eu soltava uma referência á sra. Dodds para cima de alguém, só para ver se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.
 Acabei quase acreditando neles: a sra. Dodds nunca tinha existido.
 Quase.
 Mas Grover não conseguia me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava, depois alegava que ela não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.
 Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.

CONTINUA

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sábado, 19 de outubro de 2013

04 - O Ladrão de Raios

“E agora você está longe e só te encontro nos meus sonhos. Tudo perdeu a graça e o meu único desejo é dormir. Não pra esquecer ou fugir da realidade, mas pra te encontrar. Dormir pra te encontrar…” — Reter-te.

  — Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
 A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
 Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada — a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
 A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
 Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
 Ela rosnou:
 — Morra, meu bem!
 E voou para cima de mim.
 Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
 A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
 A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada além do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
 Eu estava sozinho.
 Havia uma caneta esferográfica na minha mão.
 O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
 Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim.
 Será que eu havia imaginado tudo aquilo?
 Voltei para o lado de fora.
 Tinha começado a chover.
 Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu  formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando em viu, disse:
 — Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
 — Quem? — respondi.
 — Nossa professora. Dãã!
 Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando.
 Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
 Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
 — Quem? — respondeu ele.
 Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
 — Não tem graça, cara — disse a ele. — Isso é sério.
 Um trovão estourou no alto.
 Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido.
 Fui até ele.
 Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
 — Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
 Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
 — Senhor — disse eu —, onde está a sra. Doods?
 Ele olhou para mim com a expressão vazia.
 — Quem?
 — A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação á álgebra.
 Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
 — Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?

 Eu estava acostumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas passavam depressa. Aquela alucinação vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia estar me pregando algum tipo de peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de que a sra. Kerr — uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão — era nossa professora de iniciação á álgebra desde o Natal.
 De vez em quando eu soltava uma referência á sra. Dodds para cima de alguém, só para ver se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.
 Acabei quase acreditando neles: a sra. Dodds nunca tinha existido.
 Quase.
 Mas Grover não conseguia me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava, depois alegava que ela não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.
 Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.

CONTINUA

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