“Eu consigo perceber, o momento que você sabe não ser uma historia triste, você está vivo. Você se levanta e vê as luzes dos prédios e tudo que te faz pensar. Ouve aquela musica na estrada com a pessoa que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.” — As Vantagens de ser Invisível.
Eu não tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, á noite, visões da sra. Dodds com garras e asas de couro me faziam acordar suando frio.
O tempo maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de raios arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias depois, o maior tornado jamais visto no vale do Hudson tocou o chão a apenas trinta quilômetros da Academia Yancy. Um dos eventos correntes que aprendemos na aula de estudos sociais era o número inusitado de pequenos aviões que caíram em súbitos vendavais no Atlântico naquele ano.
Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram de D para F. Entre em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto para fora da sala e tinha de ficar no corredor em quase todas as aulas.
Finalmente, quando o nosso professor de inglês, o sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima vez porque eu tinha tanta preguiça de estudar para as provas de ortografia, eu explodi. Chamei-o de velho dipsomaníaco. Não sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem.
O diretor mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não seria convidado a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte.
Ótimo, disse a mim mesmo. Simplesmente ótimo.
Eu estava com saudades de casa.
Queria ficar com minha mãe no nosso pequeno apartamento no Upper East Side, mesmo que tivesse de frequentar uma escola pública e aturar meu padrasto detestável e seus jogos de pôquer estúpidos.
E no entanto... havia coisas em Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha janela para os bosques, o rio Hudson a distância, o cheiro dos pinheiros. Sentiria falta de Grover, que tinha sido um bom amigo, mesmo com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao próximo ano sem mim.
Também sentiria falta da aula de latim — os dias malucos de torneio do sr. Brunner e sua confiança em que eu poderia me sair bem.
Quando a semana de exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual eu estudava. Não tinha me esquecido do que o sr. Brunner falara, sobre essa matéria ser questão de vida ou morte para mim. Não sabia muito bem por quê, mas começara a acreditar nele.
Na noite anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega do outro lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora da página, dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate. Não havia jeito de eu me lembrar da diferença entre Quíron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar aqueles verbos latinos? Nem pensar.
Fiquei indo de um lado para outro no quarto, com a sensação de que havia formigas andando por dentro da minha camisa.
Lembrei a expressão séria do sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Respirei fundo. Peguei o livro de mitologia.
Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o sr. Brunner, quem sabe ele me daria algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo grande F que ia tirar na prova. Não queria sair da Academia Yancy deixando-o pensar que eu não tinha me esforçado.
Desci a escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas a porta do sr. Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso do corredor.
Eu estava a três passos da maçaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala. O sr. Brunner tinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dúvida, era a de Grover disse: "... preocupado com Percy, senhor."
Eu gelei.
Normalmente não sou bisbilhoteiro, mas desafio alguém a não tentar ouvir quando seu melhor amigo está falando sobre você com um adulto.
Cheguei um pouquinho mais perto.
— ... sozinho nesse verão — Grover estava dizendo. — Quer dizer, uma Benevolente na escola! Agora que sabemos com certeza, e eles também sabem...
— Só vamos piorar as coisas se o apressarmos — disse o sr. Brunner. — Precisamos que o menino amadureça mais.
— Mas ele pode não ter tempo. O prazo final do solstício de verão...
— Terá de ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorância enquanto ainda pode.
— Senhor, ele a viu...
— Imaginação dele — insistiu o sr. Brunner. — A Névoa sobre os alunos e a equipe será suficiente para convencê-lo disso.
— Senhor, eu... eu não posso fracassar nas minhas tarefas de novo. — A voz de Grover estava embargada de emoção. — Sabe o que isso significaria.
— Você não fracassou, Grover — disse o sr. Brunner gentilmente. — Eu deveria tê-la visto como ela era. Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo até o próximo outono...
O livro de mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.
O sr. Brunner silenciou.
Com o coração disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor.
Uma sombra deslizou pelo vidro iluminado da porta da sala de Brunner, a sombra de algo muito mais alto do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa suspeitamente parecido com o arco de um arqueiro.
Abri a porta mais próxima e me esgueirei para dentro.
Alguns segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop, como blocos de madeira abafados, depois um som como o de um animal farejando bem na frente da minha porta. Um grande vulto escuro parou diante do vidro e depois seguiu adiante.
Uma gota de suor escorreu por meu pescoço.
Em algum lugar no corredor, o sr. Brunner falou.
— Nada — murmurou ele. — Meus nervos não andam muito bons desde o solstício de inverno.
— Nem os meus — disse Grover. — Mas eu podia ter jurado...
— Volte para o dormitório — disse-lhe o sr. Brunner. — Você tem um longo dia de provas amanhã.
— Nem me lembre.
As luzes se apagaram na sala do sr. Brunner.
Aguardei no escuro pelo que pareceu uma eternidade.
Por fim, me esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitório.
Grover estava deitado na cama, estudando as anotações para a prova de latim como se tivesse estado lá a noite inteira.
— Ei! — disse ele, com olhar de sono. — Vai estar preparado para a prova?
Não respondi.
CONTINUA
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