sexta-feira, 25 de outubro de 2013

10 - O Ladrão de Raios

 Como se eu fosse dirigir aos doze anos. Mas isso não importava para Gabe. Se alguma gaivota fizesse cocô na pintura, ele arranjaria um jeito de me culpar.
 Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou á porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
 Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.

 Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
 Eu adorava o lugar.
 Íamos para lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia porque a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
 Á medida que nos aproximavámos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficando da cor do mar.
 Chegamos lá ao pôr-do-sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho ás gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
 Acho que eu devia explicar a comida azul.
 Veja bem, Gabe uma vez disse á minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversário azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso — junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano — era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para a rebeldia, como eu.
 Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
 Finalmente, reuni coragem para perguntar o que sempre me vinha á cabeça quando íamos a Montauk — meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d'água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
 — Ele era gentil, Percy — disse ela. — Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo preto dele, você sabe, e os olhos verdes.
 Mamãe pescou uma jujuba azul do saco de doces.
 — Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
 Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
 — Que idade eu tinha? — perguntei. — Quer dizer... quando ele se foi?
 Ela olhou para as chamas.
 — Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
 — Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.
 — Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
 Tentei conciliar isso com o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre o meu pai. Uma sensação calorosa. Um sorriso.
 Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
 Fiquei com raiva de meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ele nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
 — Você vai me mandar embora de novo? — perguntei a ela. — Para outro internato?
 Ela puxou um marshmallow do fogo.
 — Eu não sei, meu bem. — Sua voz soou muito séria. — Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
 — Por que você não quer me ver por perto? — Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
 Os olhos da minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
 — Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
 Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito — que era melhor para mim deixar Yancy.
 — Porque eu não sou normal? — disse eu.
 — Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
 — Em segurança por quê?
 Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças — todas as coisas esquisitas, assustadoras que sempre me aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
 No quarto ano, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da cabeça.
 Antes disso — uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com minhas mãos gorduchas de bebê.
 Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair.
 Eu sabia que devia contar á minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a notícia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.

CONTINUA

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

10 - O Ladrão de Raios

 Como se eu fosse dirigir aos doze anos. Mas isso não importava para Gabe. Se alguma gaivota fizesse cocô na pintura, ele arranjaria um jeito de me culpar.
 Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou á porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
 Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.

 Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
 Eu adorava o lugar.
 Íamos para lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia porque a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
 Á medida que nos aproximavámos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficando da cor do mar.
 Chegamos lá ao pôr-do-sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho ás gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
 Acho que eu devia explicar a comida azul.
 Veja bem, Gabe uma vez disse á minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversário azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso — junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano — era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para a rebeldia, como eu.
 Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
 Finalmente, reuni coragem para perguntar o que sempre me vinha á cabeça quando íamos a Montauk — meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d'água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
 — Ele era gentil, Percy — disse ela. — Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo preto dele, você sabe, e os olhos verdes.
 Mamãe pescou uma jujuba azul do saco de doces.
 — Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
 Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
 — Que idade eu tinha? — perguntei. — Quer dizer... quando ele se foi?
 Ela olhou para as chamas.
 — Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
 — Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.
 — Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
 Tentei conciliar isso com o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre o meu pai. Uma sensação calorosa. Um sorriso.
 Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
 Fiquei com raiva de meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ele nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
 — Você vai me mandar embora de novo? — perguntei a ela. — Para outro internato?
 Ela puxou um marshmallow do fogo.
 — Eu não sei, meu bem. — Sua voz soou muito séria. — Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
 — Por que você não quer me ver por perto? — Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
 Os olhos da minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
 — Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
 Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito — que era melhor para mim deixar Yancy.
 — Porque eu não sou normal? — disse eu.
 — Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
 — Em segurança por quê?
 Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças — todas as coisas esquisitas, assustadoras que sempre me aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
 No quarto ano, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da cabeça.
 Antes disso — uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com minhas mãos gorduchas de bebê.
 Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair.
 Eu sabia que devia contar á minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a notícia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.

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