“Os homens de profunda tristeza se denunciam quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme - eles sabem muito bem como ela escapa!” — Friedrich Nietzsche, Além do Bem e do Mal.
— Grover — disse eu —, do que exatamente você está me protegendo?
Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo dos nossos pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o Greyhound com dificuldade até o acostamento.
Depois de alguns minutos fazendo alguns sons metálicos no compartimento do motor, o motorista anunciou que teríamos de descer. Grover e eu saímos em fila com todos os outros.
Estávamos em um trecho de estrada rural — um lugar que a gente nem notaria se não tivesse enguiçado lá. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos e lixo jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente.
As coisas á venda pareciam realmente boas: caixas transbordando de cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com pés em forma de patas, cheia de gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço á sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.
Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de suéteres, mas, obviamente, eram meias. A senhora da direita tricotava uma delas. A da esquerda tricotava outra. A do meio segurava uma enorme cesta de lã azul brilhante.
As três mulheres pareciam muito velhas, com o rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com lenço branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.
A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim.
Encarei Grover para comentar isso e vi que seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia.
— Grover? — disse eu. — Ei, cara...
— Diga que elas não estão olhando para você. Estão, não é?
— Estão. Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?
— Não tem graça, Percy. Não tem graça nenhuma.
A velha do meio pegou uma tesoura imensa — dourada e prateada, de lâminas longas, como uma tosquiadeira. Ouvi Grover tomar fôlego.
— Vamos entrar no ônibus — ele me disse. — Venha.
— O quê? — disse eu. — Lá dentro está fazendo quinhentos graus.
— Venha! — Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.
Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim. A do meio cortou o fio de lã, e posso jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas de trânsito. As duas amigas dela enrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria aquilo — o Pé Grande ou o Godzilla
Na traseira do ônibus, o motorista arrancou um grande pedaço de metal fumegante do compartimento do motor. O ônibus estremeceu e o motor voltou á vida, roncando.
Os passageiros aplaudiram.
— Tudo em ordem! — gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com chapéu. — Todo o mundo para dentro!
Quando já estávamos a caminho, comecei a me sentir febril, como se tivesse pego uma gripe.
Grover não pareceu muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes.
— Grover?
— Sim?
— O que me diz?
Ele enxugou a testa com a manga da camisa.
— Percy, o que você viu lá atrás, na banca de frutas?
— Você quer dizer, aquelas velhas? O que há com elas, cara? Elas não são como... a sra. Dodds, são?
A expressão dele era difícil interpretar, mas tive a sensação de que as velhas da banca de frutas eram algo muito, muito pior do que a sra. Dodds. Grover disse:
— Só me diga o que você viu.
— A do meio pegou a tesoura e cortou o fio.
Ele fechou os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal da cruz, mas não era isso. Era outra coisa, algo um tanto... mais antigo.
Ele disse:
— Você a viu cortar o fio.
— Sim. E daí? — Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.
— Isso não está acontecendo — murmurou Grover. Ele começou a morder o dedão. — Não quero que seja como na última vez.
— Que última vez?
— Sempre o sétimo ano. Eles nunca passam do sétimo.
— Grover — disse eu, porque ele estava realmente começando a me assustar —, do que você está falando?
— Deixe que eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.
Aquele me parecia um pedido estranho, mas prometi.
— É uma superstição ou coisa assim? — perguntei.
Nenhuma resposta.
— Grover... aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?
Ele olhou para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo e flores que eu gostaria mais de ter em meu caixão.
CONTINUA
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