— Tentei manter você tão perto de mim quanto pude — falou minha mãe. — Eles me disseram que isso era um erro. Mas só havia uma outra opção, Percy... o lugar para onde seu pai queria mandá-lo. E eu simplesmente... simplesmente não poderia aguentar ter de fazer isso.
— Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
— Não uma escola — disse ela suavemente. — Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai — que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer — teria falado com minha mãe sobre uma acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
— Desculpe, Percy — continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. — Mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
— Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.
Naquela noite, eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar um ao outro á beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem mais arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que rachava árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
— Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada — alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
— Procurei a noite toda — arquejou ele. — O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada — não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
— Percy — disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. — O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
— O Zeu kai alloi theoi! — gritou ele. — Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças — e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
— Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
Ela agarrou sua bolsa, jogou para mim a minha capa de chuva e disse:
— Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro — mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Havia cascos fendidos.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava de excursões do jardim de infância para o zoológico infantil — lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
— Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
— Não exatamente — disse ele. — Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
— Observando a mim?
— Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo — acrescentou apressadamente. — Eu sou seu amigo.
— Ahn... o que é você, exatamente?
CONTINUA
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013
11 - O Ladrão de Raios
— Tentei manter você tão perto de mim quanto pude — falou minha mãe. — Eles me disseram que isso era um erro. Mas só havia uma outra opção, Percy... o lugar para onde seu pai queria mandá-lo. E eu simplesmente... simplesmente não poderia aguentar ter de fazer isso.
— Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
— Não uma escola — disse ela suavemente. — Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai — que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer — teria falado com minha mãe sobre uma acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
— Desculpe, Percy — continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. — Mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
— Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.
Naquela noite, eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar um ao outro á beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem mais arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que rachava árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
— Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada — alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
— Procurei a noite toda — arquejou ele. — O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada — não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
— Percy — disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. — O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
— O Zeu kai alloi theoi! — gritou ele. — Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças — e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
— Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
Ela agarrou sua bolsa, jogou para mim a minha capa de chuva e disse:
— Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro — mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Havia cascos fendidos.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava de excursões do jardim de infância para o zoológico infantil — lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
— Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
— Não exatamente — disse ele. — Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
— Observando a mim?
— Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo — acrescentou apressadamente. — Eu sou seu amigo.
— Ahn... o que é você, exatamente?
CONTINUA
— Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
— Não uma escola — disse ela suavemente. — Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai — que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer — teria falado com minha mãe sobre uma acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
— Desculpe, Percy — continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. — Mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
— Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.
Naquela noite, eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar um ao outro á beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem mais arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que rachava árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
— Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada — alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
— Procurei a noite toda — arquejou ele. — O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada — não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
— Percy — disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. — O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
— O Zeu kai alloi theoi! — gritou ele. — Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças — e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
— Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
Ela agarrou sua bolsa, jogou para mim a minha capa de chuva e disse:
— Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro — mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Havia cascos fendidos.
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava de excursões do jardim de infância para o zoológico infantil — lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
— Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
— Não exatamente — disse ele. — Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
— Observando a mim?
— Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo — acrescentou apressadamente. — Eu sou seu amigo.
— Ahn... o que é você, exatamente?
CONTINUA
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