“Então você percebe que se apegou demais, e que já não é possível viver sem aquela pessoa.” — Reter-te.
— Está com uma cara horrível. — Ele franziu a testa. — Tudo bem?
— Só estou cansado.
Virei-me para que ele não pudesse perceber minha expressão e comecei a me preparar para dormir.
Não entendi o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo.
Mas uma coisa estava clara: Grover e o sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas. Achavam que eu corria algum tipo de perigo.
Na tarde seguinte, quando estava saindo da prova de latim de três horas, atordoado com todos os nomes gregos e romanos que tinha escrito errado, o sr. Brunner me chamou de volta.
Por um momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na noite anterior, mas não parecia ser esse o problema.
— Percy — disse ele. — Não fique desanimado por deixar Yancy. É... é para o seu bem.
Seu tom era gentil, mas ainda assim as palavras me deixaram sem graça. Embora ele estivesse falando baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou um sorriso falso e, sarcasticamente, fez pequenos movimentos de beijo com os lábios.
Eu murmurei:
— Está bem, senhor.
— Quer dizer... — O sr. Brunner andou com a cadeira para trás e para a frente, como se não tivesse certeza do que falar. — Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão de tempo.
Meus olhos ardiam.
Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz. Depois de falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava destinado a ser expulso.
— Certo — disse eu, tremendo.
— Não, não — disse o sr. Brunner. — Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer... é que você não é normal, Percy. Não é nada ser...
— Obrigado — soltei. — Muito obrigado, senhor, por me lembrar.
— Percy...
Mas eu já tinha ido.
No último dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala.
Os outros garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as férias. Um deles ia fazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro de um mês pelo Caribe. Eram delinquentes juvenis como eu, mas delinquentes juvenis ricos. Os papais eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era um joão-ninguém, de uma família de joões-ninguém.
Eles me perguntaram o que ia fazer no verão, e eu disse que voltaria para a cidade.
O que não lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de verão passeando com cachorros ou vendendo assinaturas de revistas, e passar o tempo livro pensando em onde iria estudar no outono.
— Ah — disse um dos garotos. — Legal.
Eles voltaram a conversa como se eu não existisse.
A única pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as coisas aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhattan no mesmo ônibus Greyhound que eu, então lá estávamos nós, juntos outra vez, indo para a cidade.
Durante toda a viagem de ônibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os outros passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando saíamos de Yancy, como se esperasse que algo ruim fosse acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo de que o provocassem. Mas não havia ninguém para fazer isso no Greyhound.
Finalmente, não pude mais aguentar.
— Procurando Benevolentes?
Grover quase pulou do assento.
— O que... o que você quer dizer?
Confessei ter ouvido a conversa dele com o sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.
O olho de Grover estremeceu.
— Quanto você ouviu?
— Ah... não muito. O que é prazo final do solstício de verão?
Ele se esquivou.
— Olhe, Percy... Eu só estava preocupado com você, entende? Quer dizer, tendo alucinações com professoras de matemática demoníacas...
— Grover...
— E eu estava dizendo ao sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou coisa assim, porque não havia uma pessoa chamada sra. Dodds e...
— Grover, você mente muito mal mesmo.
As orelhas dele ficaram cor-de-rosa.
Do bolso da camisa, ele pescou um cartão de visitas encardido.
— Pegue isto, certo? Para o caso de você precisar de mim neste verão.
O cartão tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos disléxicos, mas por fim consegui identificar alguma coisa como:
Grover Underwood
Guardião
Colina Meio-Sangue
Long Island, Nova York
(800) 009-0009
— O que é Colina Meio...
— Não fale alto! — ganiu. — É meu, ah... endereço de verão.
Meu coração desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a família dele poderia ser tão rica quanto as dos outros em Yancy.
— Certo — falei, mal-humorado. — Tá, se eu quiser fazer uma visita á sua mansão.
Ele assentiu.
— Ou... ou se você precisar de mim.
— Porque eu iria precisar de você?
Saiu mais rude do que eu pretendia.
Grover ficou com a cara toda vermelha.
— Olhe, Percy, a verdade é que eu... eu tenho, de certo modo, que proteger você.
Olhei fixamente para ele.
Durante o ano inteiro me meti em brigas para manter os valentões longe dele. Perdi o sono temendo que, sem mim, ele fosse apanhar no ano que vem. E ali estava Grover agindo como se fosse ele a me defender.
CONTINUA
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