sexta-feira, 18 de outubro de 2013

02 - O Ladrão de Raios

“E nas noites de chuva fina, a saudade de você é ainda maior.” — Reter-te.

  Ela me apontava o dedo torto e dizia: "Agora, meu bem", com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
 Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
 — Você está certíssimo.
 O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
 Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado da estela, e eu me virei e disse:
 — Quer calar a boca?
 Saiu mais alto do que eu pretendia.
 O grupo inteiro deu risada. O sr. Brunner interrompeu sua história.
 — Sr. Jackson — disse ele —, fez algum comentário?
 Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
 — Não, senhor.
 O sr. Brunner para uma das figuras na estela.
 — Talvez possa nos dizer o que essa figura representa.
 Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
 — É Cronos comendo os filhos, certo?
 — Sim — disse o Sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. — E ele fez isso porque...
 — Bem... — eu quebrei a cabeça para me lembrar. — Cronos era o deus-rei e...
 — Rei? — perguntou o sr. Brunner.
 — Titã — eu me corrigi. — E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs...
 — Eca! — disse uma das meninas atrás de mim.
 — ... e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs — continuei —, e os deuses venceram.
 Algumas risadinhas do grupo.
 Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
 — Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar na nossa entrevista de emprego: "Por favor, explique porque Cronos comeu seus filhos."
 — E porque, sr. Jackson — disse o sr. Brunner —, parafraseando a excelente pergunta da srta. Bobofit, isso importa na vida real?
 — Se ferrou — murmurou Grover.
 — Cale a boca — chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
 Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo de errado. Tinha ouvidos de radar.
 Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
 — Não sei, senhor.
 — Entendo. — O sr. Brunner pareceu desapontado. — Bem, meio ponto, sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortaram-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
  A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
 Grover estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
 — Sr. Jackson;.
 Eu sabia o que vinha a seguir.
 Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
 — Senhor?
 O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora — olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
 — Você precisa aprender a responder á minha pergunta — disse ele.
 — Sobre os titãs?
 — Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
 — Ah.
 — O que você aprende comigo — disse ele — é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
 Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
 Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava "Olé!" e nos desafiava, ponta de espada contra giz, a correr para o quadro negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de c-. Não — ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.   
 Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
 Ele me disse para sair e comer meu lanche.

 A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
 Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêncios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando.
 Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
 Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquistões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
 — Detenção? — perguntou Grover.
 — Não — disse eu. — Não do Brunner. Eu só gostaria que ele ás vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
 Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum tipo de comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
 — Posso comer sua maçã?
 Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.

CONTINUA             

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

02 - O Ladrão de Raios

“E nas noites de chuva fina, a saudade de você é ainda maior.” — Reter-te.

  Ela me apontava o dedo torto e dizia: "Agora, meu bem", com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
 Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
 — Você está certíssimo.
 O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
 Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado da estela, e eu me virei e disse:
 — Quer calar a boca?
 Saiu mais alto do que eu pretendia.
 O grupo inteiro deu risada. O sr. Brunner interrompeu sua história.
 — Sr. Jackson — disse ele —, fez algum comentário?
 Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
 — Não, senhor.
 O sr. Brunner para uma das figuras na estela.
 — Talvez possa nos dizer o que essa figura representa.
 Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
 — É Cronos comendo os filhos, certo?
 — Sim — disse o Sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. — E ele fez isso porque...
 — Bem... — eu quebrei a cabeça para me lembrar. — Cronos era o deus-rei e...
 — Rei? — perguntou o sr. Brunner.
 — Titã — eu me corrigi. — E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs...
 — Eca! — disse uma das meninas atrás de mim.
 — ... e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs — continuei —, e os deuses venceram.
 Algumas risadinhas do grupo.
 Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
 — Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar na nossa entrevista de emprego: "Por favor, explique porque Cronos comeu seus filhos."
 — E porque, sr. Jackson — disse o sr. Brunner —, parafraseando a excelente pergunta da srta. Bobofit, isso importa na vida real?
 — Se ferrou — murmurou Grover.
 — Cale a boca — chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
 Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo de errado. Tinha ouvidos de radar.
 Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
 — Não sei, senhor.
 — Entendo. — O sr. Brunner pareceu desapontado. — Bem, meio ponto, sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortaram-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
  A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
 Grover estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
 — Sr. Jackson;.
 Eu sabia o que vinha a seguir.
 Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
 — Senhor?
 O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora — olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
 — Você precisa aprender a responder á minha pergunta — disse ele.
 — Sobre os titãs?
 — Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
 — Ah.
 — O que você aprende comigo — disse ele — é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
 Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
 Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava "Olé!" e nos desafiava, ponta de espada contra giz, a correr para o quadro negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de c-. Não — ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.   
 Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
 Ele me disse para sair e comer meu lanche.

 A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
 Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêncios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando.
 Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
 Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquistões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
 — Detenção? — perguntou Grover.
 — Não — disse eu. — Não do Brunner. Eu só gostaria que ele ás vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
 Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum tipo de comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
 — Posso comer sua maçã?
 Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.

CONTINUA             

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