“Deitar na cama, abraçar o travesseiro, e pensar em você.. Virou rotina. Imaginar seu sorriso, doce e leve. Isso me trás sorrisos bobos, suspiros profundos, lembranças ótimas. E de tanto imaginar momentos ao seu lado, caio no sono com sua imagem em minha mente.” — Meu Coração.
Observei os táxis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos sentados. Eu não a via desde o Natal. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente de me ver, mas também ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria de que preciso me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o olhar triste que ela me lançaria.
O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as amigas feiosas — imagino que tivesse se cansado de roubar aos turistas — e deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
— Oops. — Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos líquido.
Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão de vezes: "Conte até dez, controle seu gênio." Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos.
Não me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no chafariz, berrando:
— Percy me empurrou!
A sra. Dodds se materializou ao nosso lado.
Algumas das crianças estavam sussurrando:
— Você viu...
— ... a água...
— ... parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de presentes do museu etc e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo qual ela esperara o semestre inteiro:
— Agora, meu bem...
— Eu sei — resmunguei. — Um mês apagando livros de exercícios.
Não foi a coisa certa para dizer.
— Venha comigo — disse a sra. Dodds.
— Espere! — guinchou Grover. — Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da sra. Dodds.
Ela lançou um olhar tão furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
— Acho que não, sr. Underwood — disse ela.
— Mas...
— Você... vai... ficar... aqui.
Grover me olhou desesperadamente.
— Tudo bem, cara — disse a ele. — Obrigado por tentar.
— Meu bem — latiu a sra. Dodds para mim. — Agora.
Nancy Bobofit deu um sorriso falso.
Lancei-lhe meu olhar de "vou acabar com a sua raça". Então me virei para enfrentar a sra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava postada á entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.
Como ela chegou lá tão depressa?
Tenho milhares de momentos desse tipo — meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta certeza.
Fui atrás da sra. Dodds.
No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo os olhos entre mim e o sr. Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor estava absorto em seu romance.
Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes.
Mas aparentemente não era esse o plano.
Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estávamos de volta á seção greco-romana.
A não ser por nós, a galeria estava vazia.
A sra. Dodds estava postada de braços cruzados na frente de um grande friso de mármore com os deuses gregos. Ela fazia um ruído estranho com a garganta, como um rosnado.
Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora, especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulverizá-lo...
— Você está nos criando problemas, meu bem — disse ela.
Fiz o que era seguro. Disse:
— Sim, senhora.
Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro.
— Você achou mesmo que ia se safar desta?
A expressão em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa.
Ela é uma professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar.
Eu disse:
— Eu... eu vou me esforçar mais, senhora.
Um trovão sacudiu o edifício.
— Nós não somos bobos, Percy Jackson — disse a sra. Dodds. — Seria apenas uma questão de tempo até que o descobríssemos.
Eu não sabia do que ela estava falando.
Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre Tom Sawyer na internet sem nem ter lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a ler o livro.
— E então? — exigiu.
— Senhora, eu não...
— O seu tempo se esgotou — sibilou ela.
Então algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas — e estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.
O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas até o vão da porta da galeria, segurando uma caneta.
CONTINUA
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